ESTÁDIOS DE ALMA: Dragão à procura de fôlego frente a Aves a planar por cima da linha de água

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Eduardo Carvalho, 28 anos, Analista de estratégia em futebol

A rubrica de futebol do Jornal Referência acompanhou, esta semana, a recepção do FC Porto ao CD Aves, um encontro a contar para a jornada 29 da Liga NOS.

A equipa da casa vinha de uma derrota em Belém – a segunda consecutiva fora de casa -, que permitiu a ultrapassagem do tetracampeão e arqui-rival Benfica na liderança da liga. Os forasteiros vinham de uma série de três derrotas, um ciclo negativo que contrastava com o campeonato relativamente positivo que vinham realizando.

O técnico portista já pôde contar com Iván Marcano no lugar de Osório, optando ainda por recuar Ricardo, relegando Maxi Pereira para o banco de suplentes e promovendo a entrada de Otávio para a tarefa de relacionar o flanco direito com o espaço interior.

O treinador da turma de Vila das Aves, por seu turno, fez regressar Carlos Ponck à equipa titular – em detrimento de Jorge Fellipe – e o trinco Cláudio Falcão pelo criativo Luís Fariña, adaptando Pedrinho a lateral-esquerdo perante a indisponibilidade de Nélson Lenho, além de apostar em Alexandre Guedes para o eixo do ataque, por troca com Derley.

O FC Porto entrou a todo o gás e, logo aos 8 minutos, Alex Telles inaugurou o marcador, na sequência de uma grande penalidade. O guarda-redes avense adivinhou o lado, mas o brasileiro havia desferido um remate bem “puxado”, que não deu hipótese de defesa. Foi o “matar de um borrego” em lances deste tipo, que se arrastava há bastante tempo.

Apenas 3 minutos depois, após um lançamento longo para a área visitante, Cláudio Falcão saiu a jogar, em vez de aliviar e, quando tentou soltar, Otávio saiu-lhe ao caminho e deu o corpo à bola, com esta a ressaltar para trás e a trair Adriano Facchini.

Os dragões dominavam o jogo através do ímpeto ofensivo que caracterizou o futebol da equipa ao longo de grande parte do campeonato. Os azuis e brancos impressionavam pela velocidade sobre a bola e, sobretudo, a capacidade de recuperação – quer em zona adiantada, aquando da construção ou transição adversária, quer em zona recuada, com descidas determinadas dos médios e dos avançados – Tiquinho Soares protagonizou o lance mais vistoso a este nível.

Héctor Herrera e Ricardo Pereira destacavam-se pelas acelerações, desequilibrando várias vezes a organização defensiva dos forasteiros. O português quase fazia o terceiro golo, num lance em que Aboubakar evitou a saída do esférico pela linha de fundo, endossando-lhe, em seguida, com o lateral a rodar e a rematar com muito efeito, de pé esquerdo – o seu menos efectivo – mas a bola passou ao lado do poste.

Soares, Otávio, Herrera e Brahimi – duas vezes – tiveram oportunidade para ampliar o marcador, mas Facchini ou a trave impediram que isso se concretizasse.

Na parte final do primeiro período de jogo, os portistas baixaram o ritmo e a equipa que se deslocou de Vila das Aves aproveitou para criar perigo, mas nem Guedes emendou da melhor forma um excelente cruzamento de Nildo Petrolina, nem Amilton conseguiu tirar partido do excessivo adiantamento da defensiva da casa e reduzir a desvantagem.

No segundo tempo, os comandados de José Mota surgiram com outra determinação e assertividade, que lhes permitiram equilibrar os duelos a meio-campo e, consequentemente, o jogo.

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A entrada de Fariña, aos 55 minutos, foi particularmente importante para essa melhoria, trazendo outro critério e capacidade de pressão aos forasteiros. Do lado oposto, Sérgio Conceição terá instruído Brahimi a aparecer mais no corredor central, em permuta pontual com Otávio. Sempre que o argelino pega no jogo pelo meio e, nomeadamente, mais perto do “grande círculo”, a equipa ganha outra capacidade de construir de forma mais apoiada, perdendo menos vezes a posse de bola do que o habitual. Esta nuance ganha especial relevância num meio-campo em que Herrera é o “motor” e numa fase de menor inspiração de Sérgio Oliveira.

Por falar em momentos de forma, o de Ricardo Pereira é inversamente proporcional ao do médio português, ele que fez constantes “piscinas” pela ala direita, ora desequilibrando com investidas atacantes, ora recuperando o posicionamento defensivo para “fechar a porta” aos contra-ataques dos vermelhos e brancos.

Também Alex Telles surpreendeu pela disponibilidade física que exibiu nesta partida, ele cumpriu somente a segunda desde que regressou de lesão. Aos 77 e, principalmente, aos 80 minutos, o lateral-esquerdo cobrou dois livres com precisão, mas o guardião do Desportivo evitou o avolumar do resultado.

A turma visitante chegou mesmo a ameaçar, em duas ou três ocasiões, reduzir a diferença. A melhor de todas foi já nos descontos, na sequência de um cruzamento largo da direita, a defesa do FC Porto ganhou no espaço aéreo, a bola sobrou para Sérgio Oliveira que, com alguma passividade, perdeu a posse para um adversário, este abriu em Hamdou Elhouni que driblou da esquerda para o centro e disparou forte, contra o poste direito da baliza à guarda de Iker Casillas.

O FC Porto mantém a distância mínima para o líder Benfica, em vésperas de se deslocar à Luz para um Clássico que pode ser mais decisivo para a atribuição do título do que nas últimas temporadas.

O Desportivo das Aves averbou a terceira derrota consecutiva, mas mantém-se em zona de manutenção e, tão ou mais importante, conta com qualidade e experiência teoricamente superiores à maioria dos seus rivais directos, factor que costuma ser decisivo na luta pela permanência no principal escalão do futebol nacional.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Foto destaque: Ana Regina Ramos

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