OPINIÃO: Temos mesmo que mudar de ano?

Luís Guimarães, 30 anos, vice-presidente da Federação Distrital da Juventude Socialista do Porto

Na sabedoria popular e idiossincrática que insiste que “a Quem muda, Deus ajuda” vemos um conforto que surge do mesmo local de onde vieram as mais antigas almofadas espirituais: do cérebro pré-frontal e provavelmente do núcleo accumbens. E ainda não conheci com suficiente profundidade outras comunidades que não a portuguesa – a qual ainda também terei muito por conhecer certamente, mas há um instrumento na maioria dos portugueses que dá ao mesmo tempo para tirar pruridos e fazer cócegas – quase como aqueles elixires de mangostão que nos impingem no intervalo dos programas televisivos – cinco pelo preço de um.

Subterfúgios.

Subterfúgios quando o casamento é abençoado porque choveu num dia de festa, ou quando quem espera sempre alcança e desesperou antes disso. A linguagem que nós, portugueses, assumimos como projeção do nosso pensamento e da nossa cultura desde o tempo dos Afonsinhos, merece toda e qualquer interrogação. Se não sabemos o que somos e porque somos, dificilmente vamos saber, com ciência e com consciência, para onde vamos. E tudo isto a propósito do “a Quem muda, Deus ajuda”. E não deixa de ter graça que a última vez que ouvi tal sabedoria multiplicada foi na trincheira eleitoral.

Não tenho que dizer que foi, e bem provavelmente, por quem queria que, de facto, mudasse. Mas Deus não ajudou. D. Sebastião há-de voltar!

Quando termina dezembro – mês etimologicamente ligado ao calendário romano, quando só havia dez meses e o ano começava no mês de março a propósito do equinócio de março – culturalmente se evoca a um espírito de renascimento. Não deixa de ser curioso que a primeira madrugada do ano seja a madrugada em que no mundo se regista o maior consumo de festa que há memória. A importância que a Humanidade dá ao nascimento de um novo ano é seguramente uma forma de reclamar por uma nova oportunidade para mudar. Sorte é que assim como o Natal é quando o Homem quiser, também o ano novo pode ser quando o Homem quer.

Mas mudar querendo custa mais. Tenhamos paciência porque mudar é só um subterfúgio como outro qualquer.

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