OPINIÃO: O dia é longo. Termina com tontaria

Ana Marques, 20 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

O século? É o XXI.
O ano? 2019.

Armas que servem para desconstruir a paz e implementar novamente a repressão, a violência, a instabilidade política e social. Deixam-nos com medo. Saem à rua aquelas pobres criaturas, desoladas, translúcidas com o vento e o pó agarrado aos corpos trémulos. Sentem mais que muitos, mais que aqueles que dizem sentir e mentem. Estas, são feridas emocionalmente e fisicamente repelentes aos olhos da plateia. De um momento para o outro, casas viram ruínas e famílias transformam-se em individualismos desagregados. Mas que porcaria! Onde estão os Deuses superiores que nos salvam dos milhentos casos de destruição e guerra? Onde está ele, aquele que dizem ser o prodígio magnânimo, quando os povos rastejam por perdão, anseiam por libertação e necessitam de pão? Os gritos soam por todo o mundo, bombardeiam os noticiários dos países designados de “desenvolvidos”, e todos nós ignoramos. Fazemos de conta que nada aconteceu. Convém-nos. Porém, nos dias de cerimónia, expomos as nossas condolências; tentamos fingir uma emoção, uma comoção pelo sucedido, viramos e reviramos as redes sociais e tornamo-las verdadeiras instituições de caridade, onde propagamos o amor, a compaixão para aliviar… deixem cá ver, exato!, o nosso âmago.

Não é incrível saber que as tragédias suscitam likes? De publicação em publicação, uma lágrima derramada, uma palavra aconchegadora, um sentimento conturbado, repleto de aflição pelos demais, olhem como ele ficou!, olhem o sangue da criança que escorre desenfreadamente pela perna e pela cabeça e pela testa e pelos braços exaustos, olhem como os pais sofrem e lutam por dias melhores e mais risonhos, estou com vocês, pray por todos os que morreram ontem e os que morrerão daqui a um século e ninguém se lembrará, ups, esqueci-me da hashtag, juntemos, filtremos o nosso orgulho e mandemos para os nossos amigos no Facebook para saberem como sou uma pessoa do bem, solidária, altruísta e humanitária! olhem para mim, fixem nesta minha vontade de exprimir rancor pelos maus, pelos terroristas que nos defraudam as vidas!; depois surgem os curiosos, o que aconteceu?, mostram-se interessados, talvez, leem à pressa, a correr, como se corressem pelas linhas, pelas palavras, enrugam a testa, espera!, caridade está mal escrito, mas não vou corrigir, vou comentar, que atitude lindíssima, que pessoa tão prestável e tão preocupada com os outros!, que vou eu comentar?, hum, enfim, sem erros, vou tentar, o telemóvel corrige, felizmente, novas tecnologias, que sorte temos!, boa!, já sei, aqui vai: “como eu a compreendo, senhora. O mundo está perdido, realmente.”, postou, sorriu, sente-se satisfeito por ter contribuído com uma mensagem positiva despejada num sítio onde todos o podem ler, onde ele pode agradar e mostrar quem é (ou não é), e segue para o telemóvel, ver as fotos da Carla, da colega de trabalho por quem ele sente uma Crush.

Do outro lado, a senhora, a humanitária solidária carismática altruísta, recebe as notificações, sente-se prestigiada, sente-se notada. Tem desconhecidos a comentar e a mandar pedido de conversação. Os likes veem e nunca vão, não recuam. Ah! Uma pessoa reagiu com espanto, outra com tristeza, outra com um gosto e uma ou duas adoraram. Calma, as meninas gostaram e adoraram o que eu escrevi ou o acontecimento? Torna-se dúbio, confuso. Creio que foi a minha publicação. As minhas honrosas palavras. Meu deus. Pessoas com quem eu nunca falei e sempre apreciei estão a comentar! Que fiz eu? Sim, claro, o meu gesto. Sou tão boa pessoa. Tenho orgulho em mim. Às vezes, nem precisamos de psicólogos, só precisamos de um pouco de atenção e de uns likes que nos apalpem as inseguranças. Afinal, as pessoas reconhecem que tenho valor, que sei praticar o bem e o melhor que existe dentro de mim. Compreendem-me.

Ah,
quem me dera que houvesse uma outra notícia! Quem me dera que morresse um palestiniano! Ou, ou, ou, enfim, um israelita! Um deles. Bastava um. Hum, nem que fosse o Henrique ali do secundário que espancou o meu filho há uma dúzia de dias. Besta. Uma besta quadrada. Enormíssimo energúmeno.

O dia é longo; termina com tontaria.

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