OPINIÃO: O dinheiro, esse, já cá canta!

Ana Marques, 20 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Mas qual é a das pessoas que vêm de fora, seja da cidade, seja fora do país, com o seu dinheirinho no bolso, fazem a sua reserva na Quinta do Ventozelo, com vista para o rio mais belo do mundo (até aqui, nada contra), e depois vão para o meio dos balados (para quem não sabe, um termo mais ou menos técnico relacionado com a vinha), vestidos como se tivessem saído da loja da Zara, com a maquilhagem toda on point, unhas feitas, “sapatos de ir ao pito”, e pousam de sorriso descontraído, cabelos ondulados ao vento, com as duas mãos ocupadas: uma com uma tesoura de cortar as uvas e a outra com um cacho idílico saído da rama de forma perfeitinha. Porquê?

Na descrição da foto uns emojis pomposos, cintilantes, a sibilar em conjunto com o filtro ideal, escolhido a dedo para a fotografia. O mundo vê, os seguidores estão satisfeitos e invejosos com as férias dos seus amigos; quem tira a foto, fica com o ego exaltado, sobrelotado, repimpado, porque, pela primeira vez, pôde presenciar a época mais encantadora do Douro: a Época das Vindimas.

Para quem trabalha realmente no duro e não tira fotos de propaganda social – A Época do sofrimento/orgulho. São os socalcos delineados, as uvas penduradas pelas ramas, as folhas secas do extremo calor, a plácida e rústica visão que compõem uma região dura; dura para trabalhar, para levar a bom porto a visão esplêndida que todos querem ver e apreciar, de cortar a respiração aos turistas que nos visitam ao longo dos 235 dias.

Eis a rotina: É por volta das cinco ou seis horas da manhã que o pessoal da vindima se levanta, não ao meio dia.

Logo antes do sol nascer, dirigem-se às padarias para comprar o pão quente e para também encontrar o pessoal da empreitada, onde sobem nas carrinhas e… siga a marcha em direção às quintas! Ainda de olheiras obscuras que nos rasgam a pele subtilmente, conversamos e tentamos deixar o sono para trás, para não cairmos na tentação da ociosidade e da moleza. Há que ir com a gana de começar com tudo, uma vez que o calor não aperta a uma hora daquelas. De repente, sinto-me um judeu a ser transportado para um campo de concentração, embora, neste caso, eu tenha compactuado com a minha própria morte.

Chegamos. As uvas trocam olhares connosco; as nossas pernas começam a tremelicar e as costas, essas, já desesperam por socorro. Formamos os nossos pares, e cá vai disto: tesoura na mão, balde na outra, entramos por um balado, e as uvas, em cachos maiores ou mais exíguos entram para dentro dos baldes. Quando enchem e, por vezes, os balsões não estão por perto, temos a deixa de esticar fugazmente as costas e dizer a altos pulmões: BALDE CHEIO!

Ainda assim, em escassos instantes. Há que continuar, parar significa sair mais tarde, e ninguém o quer, isso vos garanto!

Por volta das 9h da manhã, dependendo para quem andamos a trabalhar, é hora da bucha. É a hora sagrada.

Recarregamos as forças em dez minutos, variando, claro está; voltamos ao trabalho, as costas exasperadas de todo, e só paramos na hora de almoço. Depois da hora de almoço, vem o desafio: aguentar os trinta – ou mais – graus, tendo de prosseguir sem parar (apenas para ir bebendo alguma água), curvados, e aqui é preciso ser-se perspicaz: se, na zona onde andarmos, começarmos a ver algumas sombras, até ajoelhamos e demoramo-nos mais tempo. A sobrevivência fala mais alto. As dores queixam- se, as pernas refilam e as nossas energias perdem-se com o passar das horas.

Às 16h, ou mais tarde, enfurecemos de alegria por finalmente irmos para casa e termos o dia ganho. 35 euros, 40 euros, isto, porque varia conforme o sítio e o patrão onde andemos. Parecemos refugiados saídos da guerra, mas sorrimos porque o dinheiro já cá canta!

Isto tudo para dizer que, se as pessoas que nos visitam querem realmente experimentar e vivenciar esta época, façam realmente parte do grupo de pessoas que trabalha ao sol, não de roupas novas e exuberantes mas com roupas confortáveis, e estejam aquelas horas todas expostos ao trabalho duro do campo, da vinha. Aí sim, vocês sabem o que é ser do Douro, sentir orgulho por terem contribuído para aquelas paisagens que tanto vocês fazem stories nas redes sociais.

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