OPINIÃO: O Brexit de há quarenta anos

Romão Rodrigues, 19 anos, Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Desde muito cedo que sinto Londres bradar pelo meu espírito. Após tentativas de perceção distintas acerca da veracidade do facto, facilmente constatei que o sangue daquele apelo se devia à maior propulsora de sensações múltiplas e variadas: a música. O teletransporte é unidirecional e remonta a dezembro de 1979. Porquê? O leitor devia saber que London Calling.

Os Sex Pistols deixaram, sob o solo lamacento, a pegada da bota que aconchegava a anarquia, os casacos de cabedal e os alfinetes que perpassavam a boca e conduziram a Inglaterra numa viagem que acumulou quilómetros de críticas desmedidas à coroa, abastecendo o depósito com inúmeras tentativas de violentar o sistema. E, perante o breu alastrado, eclodiam os The Clash. Um caos movido a óleo de acalmia e a mais de dois acordes. Inglaterra e Londres necessitavam deles, da presença do punk rock com a dosagem perfeita de sinfonia, dos pareceres pessoais, sociais, morais e culturais com refino superior, do verdadeiro rosto da soberania e da confluência de vários estilos musicais. A autêntica “pedrada no charco”!

Volvidos 40 anos, uma nova rebelião desponta na sociedade mundana. O Brexit tem fim à vista. Boris Johnson venceu o habitual círculo eleitoral e, mediante o impasse de um “Should I Stay Or Should I Go” (Combat Rock, 1982) que se prolongou por três anos, o país decidiu que estava na altura de ir. O cenário de mudança inquieta qualquer alma viva e espero, sinceramente, que o país não cruze o destino do degelo (ou do deserto) e que não seja chamado nem chame o submundo para o seu território. (Toca, a rebate, London Calling). O orgulho inglês, independentemente da situação, sempre foi um alvo praticamente inalcançável: como tal, urge a munição e a recarga das suas armas, metamorfoseando todas as críticas vigentes ao acordo em potenciais pontos a seu favor. (Soa, em uníssono, The Guns of Brixton). Resta saber se o primeiro ministro inglês encerra em si a audácia, a responsabilidade e a destreza necessária para comandar o que quase metade da população considera um capricho sem qualquer tipo de fundamento. (Ecoa, sob a chuva agitada, The Right Profile).

A primeira (e única) ordem de trabalhos devia aflorar o debate à working class, preocupação materializada em muitas canções. Uma banda de esquerda? Talvez. Posicionados do lado da iliteracia imunda e pestilenta, do álcool com fartura e da insubmissão por uma causa, o povo, defronte de uma Inglaterra como o europeu comum a conhece: fria, distante, altiva, a saborear o seu chá descontraidamente e incapaz de praticar uma demonstração de afeto. (A raiva intensifica-se e escuta-se Clampdown). Face aos acontecimentos, o antídoto não sofre alterações: um país unificado, divergente nas opiniões, mas congregado no mesmo espírito, içando velas para a glória e ludibriando a morte. (A chuva cessa e ouve-se Death Or Glory).

O Reino Unido partiu a guitarra no final das eleições assim como Paul Simonon quebrou o famoso Fender Precision. Em 1979, a oposição ao governo de Margaret Thatcher vislumbrava maior ruído quando os The Clash subiam ao palco e injetavam no público a adrenalina que só a eles estava confinada. (“Revolution Rock ensurdece o poder político). Em 2019, espera-se que o palanque onde se situa Boris Johnson não ceda: o comboio só passa uma vez e, se a boleia escapar, é a “morte do ministro”. (“Train in Vain soa como alerta”).

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