OPINIÃO: “Cala-te, boca!”

Ana Marques, 20 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Pitada de Pimenta

“Cala-te, boca!”,

disse Alfredo Silva dirigindo-se a Dona Perpétua, na Canção de Lisboa, no lendário filme de 1933. E não é que aquela criatura desgastada, sagaz, com cara e corpo esbelto de Gandhi, com voz tépida, me viria a inspirar futuramente?

“Cala-te, boca!”,

foi esta a minha reação aquando da notícia que saiu e que dizia que o Juiz do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, no Brasil, ordenou que a Netflix retirasse o filme da Porta dos Fundos, um “Especial de Natal: A Tentação de Jesus Cristo”. Quis tecer duros comentários, quis até chamar o Diabo para vir aqui pôr paninhos quentes nesta gente!

“Cala-te, boca!”,

é exatamente isto que eles, e todos aqueles que hoje em dia se revestem de um manto designado de politicamente correto, tentam incumbir na nossa sociedade; um conjunto de pessoas que instigam uma pessoa ou várias que têm uma audiência pública, e que retiram delas palavras, frases que possam ser transformadas em ofensas tanto para elas como para várias comunidades. Neste caso, a maior de todas as instituições tornou a mostrar que o seu Poder ainda é bem visível e vivo em alguns países.

“Cala-te, boca!”

e não me consigo calar! Não calem o Kevin Hart como o fizeram ao ponto de impedir que concretizasse o seu sonho; não calem a Porta de Fundos apenas porque fez uma versão humorística, repleta de ironia sobre como Jesus se comportou na sua Ceia. Este tipo de pessoas precisa de ir estudar sobre comédia, mas também sobre um recurso expressivo que é a ironia. E não é apenas isso que está aqui em causa! É também um retrocesso na nossa liberdade, neste caso, na nossa liberdade de expressão, um direito nosso defendido pelas nossas democracias! Isto é tão grave não só para eles, brasileiros, como para todos nós enquanto sociedade, sendo a égide da Igreja levada avante para calar quem eles querem e bem lhes apetece! Ai, a mim não me calam.

“Cala-te, boca!”

Recentemente, mesmo antes desta decisão, a sede da produtora fora atacada. Meus senhores, eu já frisei e torno a frisar: já vi quem se revoltasse com tomates; porém, em nome de uma religião, lutar contra a infâmia com cocktails de molotov? Ai que lá em cima Deus deve ter ficado todo orgulhoso, deve! Atacar outros ao ponto de incendiar sedes é aceitável, mas ai de quem ouse ilustrar nem que, ironicamente e humoristicamente, que Deus é homossexual! Estamos cada vez mais originais, sobretudo a nível de repressão e de revoltas. Qualquer dia vamos revoltar-nos por temáticas que, sim senhor, merecem a nossa intervenção e revolta, como é o caso dos diversos escândalos que recaem sobre a Igreja Católica, porém, até lá, aguentemo-nos a tapar os olhos e as bocas! Como se nós, seres racionais (alguns, pelos vistos) não soubéssemos segregar a fé, da comédia.

Irónico, não é? Quer dizer, se calhar também preciso de ir rever o que é a ironia. E deixo-vos aqui com uma frase de Voltaire já toda traduzida: “Quando não há, entre os homens, liberdade de pensamento, não há liberdade.”

E acrescento eu, Ana Marques: Nem liberdade de criação.

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta