OPINIÃO: Quem fala assim é gago

Romão Rodrigues, 19 anos, Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Enceto o texto dizendo que considero um desejo comum a participação numa reunião de condóminos. Sei lá, fascinam-me. A discussão sobre os problemas do prédio como a impermeabilidade do telhado, a reconstrução de toda e qualquer fachada ou as dívidas dos moradores e os calotes ao longo de anos a fio (motivo mais interessante, indubitavelmente). A ausência destas temáticas em qualquer convívio entre esquerdos e direitos torna a vida de qualquer mortal (ainda mais) miserável e monótona. É a essência do peito ilustre!

Na lista dos fascínios, sucede-se a estada num congresso do LIVRE que, em termos comparativos, se aproxima e adquire quase o caráter de réplica ao desejo supracitado. O prédio é composto por um triângulo de moradores com aquelas quezílias típicas que começam pelo facto de um deles não ter disponibilizado um pé de salsa aquando do primeiro pedido. Resta saber se (o suposto) dono do pé de salsa mentiu ou contemplava o esbordar do mesmo, no armário dos condimentos. Realmente, há gente com muita má vontade…

Quero acreditar que o partido repudiou os ataques israelitas a Gaza e que a moradora de tranças se absteve porque não ouviu a proposta, num súbito momento de surdez, resultando na perplexidade, não só do fundador do prédio, como de um país inteiro. Quero acreditar na desculpa da “falta de comunicação” intrapartidária que resultou na falha da entrega da proposta da lei da nacionalidade. A Assembleia da República representa um espaço onde, por variadas razões, palavras como humanidade e sensibilidade são impedidas de assistirem ao debate quinzenal e essa foi só mais uma dessas vezes.

Questiona-se a sua sanidade mental por um simples e objetivo motivo: o partido já proferiu, publicamente, que a deputada desrespeitou o programa em alguns momentos e a mesma o negar, à boca cheia, desculpando-se com a missiva já gasta do racismo sofrido.

E, se no país pairavam dúvidas acerca do discernimento e da lucidez da deputada do LIVRE, o IX Congresso do partido dissipou-as. As ideologias e as preocupações do partido remam para uma direção e as da deputada para uma completamente diferente, embora não se conheça o seu destino. Do evento apenas se retirou histerismo e vitimização, prática frequente e exaurida desde outubro do ano transato. “Sou uma mulher de raça negra e gaga” – assim se intitula, desde sempre, numa frase que indicia o ativismo que pretende instaurar, a todo o custo, atirando para segundo plano o cumprimento do programa e respetivos ideais do LIVRE. Toda e qualquer opinião que perpassa o espetro da parvoíce à razão, em todas as suas fações, é refutado pela deputada e posteriormente ripostado e alicerçado num antirracismo que é, por si só, considerado racista.

“Elegeram uma mulher negra que foi útil para a subvenção” e “usam o ódio do qual tenho sido alvo para me afastar” são passagens que comprovam a tática da manipulação e da tentativa de se inferiorizar. Contudo, o discurso já primou pela superiorização e pelo conhecimento geral que afloram aos assuntos políticos porque afirmou ter ganho as eleições sozinha e considerar que ninguém possui o direito de lhe ensinar a fazer política. Contraditório, não?
Colocando de parte tudo isto, destaco as afirmações do elemento do Conselho de Jurisdição. “Sou do partido do Rui Tavares, do Rafael, do Pedro Mendonça, da Joacine Katar Moreira e só me sinto bem se for deles todos”. (Este deve ser o típico morador politicamente correto e capaz de se relacionar com os restantes, apesar de saber que alguns apresentam dívidas que atrasam a solução de problemas no prédio).

Por sua vez, o fundador do partido afirma que o mesmo “prefere ser fiel aos seus princípios do que a qualquer cargo político” e destina (mais) uma ferroada à deputada, momentos depois de bicar os opositores ecológicos (PAN) pelo facto de realizarem “congressos à porta fechada”. Ou seja, o morador que faz da frontalidade a arma de arremesso nas reuniões de condóminos e profere o que a maioria pensa e tem medo de dizer.

A inquilina do prédio em ruínas está “de consciência tranquilíssima”. Na minha opinião, os armários transbordam de pés de salsa e ela, por má vontade, não os quis oferecer.

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