OPINIÃO: Vai um molete, menina?

Ana Marques, 20 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Comecemos assim com uma indagação que me apoquenta: será demasiado descabido ficar com a imagem de uma pessoa que a observei durante uns instantes e querer imaginar a vida toda dela, como se fosse a Maia a lançar cartas?

Não que isso me apoquente assim tanto, vá, é apenas aqui uma questão que me envolve de pensamentos. Gosto de observar – ainda que com miopia – e, mesmo que seja apenas de forma fugaz que retenho algo ou alguém, sirvo-me da escrita e da imaginação para tentar encaixar ali uma vida que eu tracei derivadas das minhas primeiras impressões.

Chamem-me cusca, intrometida, Cláudio Ramos, o que raio quiserem, mas algo me diz que desse lado, você, leitor, já o fez mais do que uma vez, sobretudo se anda de transportes públicos todos os dias e tem de levar com a cara de vários desconhecidos às sete da manhã enquanto se desloca para o seu local de trabalho.

No outro dia vinha para casa de minha tia, em Lisboa (muito antes deste vírus), e estava uma mulher sentada mesmo em frente do prédio. A minha tia à janela, à espera que eu chegasse, e essa senhora ali, com um saco de moletes nas mãos. Mais tarde, a minha tia confessou-me que não a conhecia de lado nenhum, mas que estava ali sentada naquele momento em que me esperava e que não sabia porquê. Não me adiantou de muito mais, apenas frisou o que a mulher me tinha dito:

A menina veio do metro de Sacavém? Olhe que é perigoso andar sozinha. Ainda recentemente, não viu nas notícias, uma rapariga foi violada.

Eu disse que não sabia. Minha tia foi abrir a porta de casa e desapareceu da janela. A senhora continuava a falar comigo enquanto eu tinha um pé na entrada do prédio e a olhava:

A sério, menina. Tenha muito cuidado.

Não sabia dessa história. Nem sou de cá, mas sei que estes sítios são perigosos. Para lhe ser sincera nem sei como vim para casa sozinha, ainda por cima sem saber exatamente o caminho; mas cá estou.

Pois, disse ela ainda que visivelmente a matutar no assunto e acrescentou: Só tome cuidado na próxima vez.

E eu disse: Assim o farei. E obrigada. Boa noite.

E foi este o meu contacto com a senhora dos moletes que, apesar de podermos estranhar a presença dela ali, repentina, desconhecida e sozinha, me foi alertar para algo realmente importante.

“Ainda há gente boa…” disse cá para mim.

Tudo muito bonito até aqui. O problema é que depois fiquei a questionar se ela estaria ali a fazer tempo porque estaria solitária e queria companhia e dois dedos de conversa, ou andou por ali na zona a comprar pão, ou então ficou a dar uma de pessoa interessada na vida dos outros mas sem maldade.

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