OPINIÃO: O movimento da escrita

Márcio Luís Lima, 21 anos, Estudante de mestrado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

A mediação entre dois pensamentos é um campo amórfico, como a periferia de uma cidade. Esta não está fora da cidade nem está dentro. E é aqui que a escrita se dá, como algo sem forma que liga duas pessoas sem que estas sintam a ligação.

O pensamento é mutável, mas a escrita é estática e a partir daí é que se dá a comunicação constante e duradoura da escrita (e por ventura da leitura). O “ser” sofre uma contínua mutação devido ao estrato social e digital levantando todos os factos a despirem-se em plena praça pública do tempo.

Cada crónica é uma prova “semi” viva de um determinado tempo que se demarca num determinado escritor, que a escreve, e no determinado tempo em que o leitor a lê.

Há então uma comunicação tácita entre os dois sem que nunca se encontrem – tu que me lês, eu que te escrevo, comunicamos através da escrita, como uma mediação entre o meu pensamento e o teu pensamento, que em nada se alinham e contudo ambos compreendemos esta escrita que a crónica leva.

A interpretação é inevitável e cada qual individual – por isso é que há a separação entre o meu pensamento e os demais, e é por isso que todo o pensamento não é efémero, contrariamente à escrita neutra.

Esta neutralidade só é abandonada através da sua negação dentro do pensamento de cada um, e por conseguinte na negação da negação através do diálogo e da oralidade temporal, fugaz e exclusiva do momento – falamos tête-à-tête e não tarda nada a voz finda, o pensamento esquiva-se e dá-se a pensar outro. Na escrita as palavras manter-se-ão fieis a si próprias, à sua imutabilidade e neutralidade, aguardando o movimento singular.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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