OPINIÃO: O Libertino da “Comunidade”

Márcio Luís Lima, 21 anos, Estudante de mestrado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

A par das crenças quotidianas, há comummente aquilo que se chama de dualidade – vida ou morte – nascemos e a partir daí, sem qualquer responsabilidade de um ato alheio, vemo-nos obrigados a perlongar a existência ou a cessar. Há a remota decisão, que se toma diariamente, de erguer o amontoado de ossos pregados à carne, num cerne de caos mitológico, da cama, vestirmo-nos e permanecer na existência.

Insistir, em ser.

O cliché de um encontro numa viela obscura, com um tipo duvidoso, a ceder-me um saco do pão, ainda com as migalhas da manhã, e um revólver (descarregado) com algumas balas (basta uma), era o outro lado da moeda – a hipótese de liberdade. A têmpera abre um feixe de luz e permanece irradiada até que o coveiro entregue os devidos metros de profundidade à escolha.

“(…) Não sei se já ouviram os vossos filhos dizerem, a sério, que estão com fome. É natural que não. Mas eu digo-lhes: é essa uma música horrível, uma música que nos entra pelos ouvidos e me endoidece. Crianças que pedem pão (pão sem literatura, ó senhores!) pão, pãozinho, pão seco ou duro, mas pão, senhores do surrealismo, e do abjeccionismo, e do neo-realismo e mesmo do abstraccionismo!

Este mês de Março que vai acabar ou já acabou, pela primeira vez, eu ouvi os meus filhos com fome. E pela primeira vez, não tive que lhes dar. Perdi a cabeça, para lhes dar pão (ainda esta semana). Já não tenho que vender, empenhei dois cobertores, e um nem era meu. Tenho uma máquina de escrever, que é a minha charrua, e não a posso empenhar porque não a paguei; e tenho uma samarra, que no prego não aceitam porque agora vai haver calor e a traça também vai ao prego… Já não tenho mais nada. Tenho pedido trabalho a amigos e a inimigos. Humilhei-me, fiz sorrisos. Senti na face, expelido com boas palavras e sorrisos, o bafo da esperança, da venenosa esperança; promessas; risinhos pelas costas. (…)”

Luiz Pacheco – o mito da libertinagem no seio da literatura portuguesa.

Não quero escrever sobre o Luiz Pacheco, não tenho como. Se ainda fosse vivo, faria hoje (dia 7 de Maio) 95 anos. Um tipo bera, ou um sacana, se preferirem. Rendido à mediocridade da vida pela liberdade – ser um tipo livre, livre até ser libertino – e assim o foi.

Assim sendo, há o descalabre da escolha – “(…) aguardando a luz da manhã, que chega sempre, que acaba sempre por chegar, para vivos e mortos (…)” – a “Comunidade” apresenta o encravar do revólver, e os ossos partidos, nos pés, ao erguer da cama. Um piano cai sobre o peito e a única obrigação é respirar por entre os destroços. Não morres, nem te levantes, respiras.

Por entre toda a bruma que brota da pequena comunidade, que é o humano no seu quarto, deitado, indeciso entre a vida e a morte, o resplandecer da porcaria impede-o da decisão. A morte é oferecida com a mesma surpresa que a vida, sem qualquer conhecimento de causa – sem possibilidade de porquê associado.

A constante tortura de uma busca de resposta a uma pergunta inaudível é uma faca entre as unhas, a rasgar os tecidos frágeis da inutilidade humana, para se afiar. O olhar vazio é a assertividade pessoal na aceitação de um constante luto. O nome será lapidado, a par de um epitáfio, ou demarcado numa folha branca intitulada de “certidão”.

Do quarto há a ilusão de decisão, da porta para fora há as escolhas. O dia aparece, e dele nasce a morte. A entoada poética adorna as vielas das lixeiras a céu aberto, que são o cerco da mocidade, as jaulas do peito ardente, mas tudo é resto de um resto – o resto da vida é resto de uma decisão alheia.

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