OPINIÃO: A garganta que protege a máscara

Herman José Ribeiro

Conta-se que Pascal tivesse dito que toda a infelicidade nasce de sairmos do nosso quarto. Apesar de não concordar com o seu famoso argumento apologético, vejo-me obrigado a ceder a este dito. Pelo menos para mim a ausência do meu local de habitação potencia uma colossal melancolia.

Todavia, faço votos para que o mundo fora de casa continue existindo. Não há coisa mais bela do que a fauna e a flora. A chatice são as pessoas. Sempre foram as pessoas. Estava tudo certo até elas chegarem.

As pessoas estragam tudo. Aliás, têm vindo a estragar em barda. Foram pessoas que criaram a bomba atómica. São pessoas que continuamente têm vindo a matar o nosso planeta. Para que não bastasse, recentemente, as pessoas vituperaram a dignidade de outras tantas usando, imaginem só – o leitor não vai acreditar – máscaras que deveriam proteger boca e nariz, usam-nas para tutelar a garganta.

A Bíblia possui muitas das vezes carácter premonitório e em parte alguma nos livros proféticos suspeitaram da existência desta maleita. Os tragediógrafos gregos escreveram peças em que mães matavam os próprios filhos (no caso de Medeia), filhos que dormiam com a mãe e matavam o seu pai (no caso de Édipo) e jamais conceberam tamanha tragédia de pessoas com máscaras a tutelarem a garganta. Até Shakespeare, por exemplo, o cânone dos cânones, o grande génio segundo Bloom, escapou-se-lhe as pessoas com máscara a tutelar a garganta.

“Ah, ó Herman, já que possuis vasta cultura e notável erudição e claramente te situas num patamar muito superior a nós poderás explicar-nos por que razão as pessoas andam obcecadas na compra de máscaras com style?” Bem, não estava à espera dessa abordagem. Ainda por cima de joelhos. Vocês são mesmo especiais. Ora bem, aquilo que me perguntam é um tipo de problema psíquico que nem Freud nem Jung conseguiram apurar. Diz-se que o célebre Eça de Queiroz esteve quase a escrever um ensaio sobre isso, porém deixou de lado para escrever Os Maias.

Saiu, nesta semana, no Times que a par com a procura da solução para a vacina da Covid-19 estão também a tentar perceber esse fenómeno. De acordo com um cientista alemão as pessoas que escolhem máscaras para o style deveriam todas falecer. Claro que ele disse isto tudo em alemão.

Pois bem, meritíssimos leitores, é isto. O ser humano “é uma coisa em forma de assim assim”.


Nótula em jeito de recomendação:

Este livro: Aaron Klein, de Paulo José Miranda

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta