OPINIÃO: Entrevista a Deus

Herman José Ribeiro

Na quarta-feira foi o aniversário do jornal Referência e nada melhor do que entrevistar Deus. O autor deste espaço, Herman José Ribeiro, abdicou da sua crónica sobre violas de arco para publicar a entrevista ao dono-disto-tudo. Queremos esclarecer que Deus só aceitou dirigir-se à nossa redação se cumpríssemos todos os procedimentos recomendados pela Direção-Geral da Saúde. Assim o fizemos. Desinfetámos as mãos, mantivemos a distância de dois metros e o uso de máscaras.

Jornal Referência: Boa tarde, Deus. É um privilégio enorme tê-lo aqui. Não são todos os dias que recebemos Deus no jornal Referência. Depois do Herman foi a melhor prenda que recebemos.

Deus: Ora essa. Tenho que confessar que o Herman é um excelente escritor. Só não o levo porque já tenho o Cervantes. Quero felicitar-vos pelo sucesso que estão a ter com o jornal e pedir desculpa por ainda não ter partilhado nada nas redes sociais. Estava tão entretido a rir-me da nova diretora da cinemateca brasileira que me esqueci por completo. Eu juro que não me lembro de fazer aquilo. E também já não me acontecia esquecer de alguma coisa desde o Manuel de Oliveira. Era para o ter levado aos 35 anos e depois varreu-se-me.

JR: Muito bem. Nem acredito que está aqui connosco. Aproveito o momento para lhe fazer a seguinte pergunta da ordem do dia: o que é que o senhor tem contra a humanidade? Foi Auschwitz, foi a peste pneumónica, agora a Covid e o Big Brother ao mesmo tempo…

D: Tenho de reconhecer que a Covid e o Big Brother não são os meus melhores projetos. Mas quero acrescentar que não fui eu que fiz o Cláudio Ramos.

JR: E o Hitler?

D: Esse fui eu. Mas com o intuito de ser pintor.

JR: E já pensou como vai resolver isto tudo?

D: Sobre o Big Brother não tenho mesmo ideia. Agora, sobre a Covid já pensei, mas é segredo. Falei uma vez que ia acabar com todas as pessoas que dizem “tipo” e falhei.

JR: Deus repara muito nas palavras, estou a ver.

D: Também reparei nas suas pernas.

JR: Não abuse, Deus. Mudando de assunto: o que acha do nosso país?

D: Confesso que estou muito familiarizado com Portugal. O vosso presidente conta-me tudo.

JR: Ai sim? Contou-lhe se iria recandidatar-se?

D: Não contou, mas pensou.

JR: Então podemos concluir que sim. Que vai recandidatar-se. Quer ver que seremos o primeiro jornal a ter conhecimento da recandidatura do presidente Marcelo.

D: É a minha prenda para vocês. Pensei em oferecer-vos imunidade à Covid, mas depois optei por esta. O que acharam?

JR: Estamos sem palavras, Deus. Para terminar e visto que as sugestões literárias estão muito em voga nesta altura quer sugerir algum livro?

D: Quero sim. Recomendo o diário da Anne Frank. Fiquei a dever-lhe esta depois daquilo tudo.

JR: Terminamos assim a conversa. Foi a entrevista possível a Deus.


Nótula em jeito de recomendação:

Este livro: Teoria Estética, de Theodor W. Adorno
Este filme: O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman

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