OPINIÃO: Um Rosto na Sombra

Márcio Luís Lima, 21 anos, Estudante de mestrado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Não tenho em mim todos os sonhos do mundo, resta-me só uma cândida treva fugaz que me dá alento a estas minúsculas palavras a que chamo de crónica. Por vezes nem as quero dactilografar, ou desenhar, ou fazê-las existir de todo. Mas elas persistem por si mesmas através do fôlego sonolento na sombra do instante.

“Escrever é perigoso.” adverte-me o poeta sem rosto que nos apresenta numa reedição contra sua vontade em vida. De tanta contra vontade se produziu boa literatura, como a de Kafka, por exemplo, e por ventura agora posso ter o obscuro livro “biográfico” de Herberto Helder.

Como num imenso poema, onde as frases se assemelham a versos, com menos de duas linhas salteando de parágrafo em parágrafo, a sensação que fica é a de ler continuamente o mesmo poema. Num ritmo avassalador e trepidante pela espinha acima, até os poros da pele se irrigarem em calafrios.

Não há nada que me conforte enquanto o leio. As páginas falam-me diretamente com uma voz para além da realidade factual em que estou presente. Perco-me numa elipse distópica em que desconheço se sou eu que entrei no livro ou o livro que entrou em mim. E pouco importa, há algo que está algures por nenhures e se propaga como um eco no silêncio em silêncio.

“Ou então fumo, enquanto as camadas de silêncio se sobrepõem, e as mais pesadas descem e as mais leves se tornam mais pesadas, até ser impossível destruir o silêncio.
(…)
O silêncio é sólido, iluminado por cima, aquecido pelos lados.
Durante seis meses fumo e leio, estendido no tapete.
Depois chega o verão, e subo à montanha, e vou para o mar.
Rebento de sol e água, de odor a terra quente e agulhas de pinheiro.
Estou tremendamente forte.
Bebo vinho.
Uma noite começo a escrever.
Tenho uma memória: nada foi esquecido.
(…)
Há dentro da gaveta uma rima de folhas escritas de ambos os lados.
Escrevi-as para os sombrios tempos de esgotamento.
Eu sou – e ali está a minha prova.”

É isto, uma réstia de nada que no vácuo possui tanto.

Quando entro no meu pequeno carro francês para conduzir até à tabacaria aberta e comprar uma onça de algum tabaco para me sustentar a penúria de luto, cresce em mim uma tenebrosidade obscura. Uma génese de solitude com um calibre distante do habitual, mais pesado que todo o chumbo no estômago de uma ansiedade rupestre do trivial quotidiano.

Todas as discussões de trânsito ou os nervos à flor da pele se tornam uma vasta pequenez de pontadas sobre a alma emaranhada na pólvora, prestes a rebentar por todos os lados, ansiando um toque leve no gatilho.

Este âmago de nada, proveniente de nenhures, assombra-me no leito da insónia, como um pranto escabroso sem ponta que se lhe pegue. Nos versos de prosa infinita de Herberto Helder, alguma coisa nos agarra. Um nó ata-se e desfaz a lâmina de uma guilhotina arcaica sobre o meu pescoço.

O pé encaixa no calçado num deslize perfeito e os cordões de pó permanecem estaticamente centrados – assim como o livro sob o meu olhar atento que revive as palavras por um cavaleiro de outra realidade – um mito.

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