OPINIÃO: a marginalidade artificial do poeta

Márcio Luís Lima, 21 anos, Estudante de mestrado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Há uma eterna rivalidade entre escritores. Essencialmente entre aqueles que partilham da mesma idade, do mesmo estilo, das mesmas influências, do mesmo estatuto social, etc., etc., e depois há o desenlace de uma tácita batalha com previsões de guerra para a vida toda.

Uns logram e esquecem os que não lograram, os outros remoem. Do pé para a mão tornaram-se escritores, porque a noite os inspira a tal. Vivem numa constante ebriedade quotidiana que é viver (reprimidos no enorme cliché que é ser escritor) e fumam nos cafés, bebem vinho barato, dormem com mulheres e homens sem identidade… tudo é um tumulto de experiências rupestres pintado à mão na carne do “poema”.

Ora, estes poetas, escritores, etc., (que como eu vivem de uma publicidade digital, nos emaranhados e veredas das redes sociais), pecam pela incompreensão da “marginalidade”. A índole literária de outros tempos, propícia a uma margem de rebeldia extrema, tornou-se uma banalidade da qual todos podem beber, com mais ou menos afinco.

A droga com dinheiro dos papás ou as bebedeiras loucas são acontecimentos que se tornaram banalizados pela maioria (literária e não literária) – é um modus operandi da nova geração. E todos fizemos parte desta folha, de uma maneira ou de outra. A enormes compilações e antologias poéticas dão-nos o vasto alcance quanto à capacidade de citação de Mário Cesariny ou Al Berto – não se torna intelectual pela estante ou camadas de citações (e eu sei do que falo, que adoro a minha enorme estante e as minhas constantes citações, não obstante não me tornei num intelectual), nem se torna escritor pela imitação empírica.

A novidade está em aberto e ainda por descobrir. A literatura é ampla e mais ainda a criação. Há universos inteiros por criar e poemas por se viver. Contudo, o “social porreirismo” da amizade leva à destruição do progresso. Uma constante camaradagem que eleva o ego, simultaneamente corrói a autocrítica, especialmente em miúdos como nós, na entrada dos vinte. Os “amigos” não leem o que amigo poeta escreve e ainda assim partilham consistentemente num apoio cego que os conduz ao abismo.

Há mais vida por vir do que a que já veio, há mais novo que velho e há mais poesia que poetas – primeiro é preciso escrever, depois é-se poeta e escritor (e a carrada de predicados possíveis). Para se escrever como Cesariny é preciso ser-se Cesariny (e Cesariny só houve um).

1 Trackback / Pingback

  1. a marginalidade artificial do poeta (crónica) – Beco da Pedra Azul

Deixe uma resposta