OPINIÃO: Chuveiros de ginásio

Herman José Ribeiro

Aposto um Centeno como tiveram saudades minhas. Achavam que tinha ido de férias sem ao menos cativar-vos um bocadinho? Esta piada política era para ser feita em 2019, mas como na altura só escrevia poesia, acabei por dizê-la agora. Tenho estado ausente porque achei tão inspirador o que Rui Rio propôs sobre acabar com as reuniões quinzenais que dei por mim a dizer “porque não começo a escrever duas vezes por ano no jornal”. Eu até gosto disto, de estar com vocês e tal, mas preciso de trabalhar, meus amigos.

Vamos ao tema que ainda tenho de escrever um livro para amanhã. Por falar nisto de escrever um livro. Acho que há escritores em barda no Instagram. Melhor: demasiada malta que se diz escritora. Se bem me lembro em tempos para se ser escritor, imaginem só, tínhamos que nos dar ao trabalho de escrever livros. Ora, hoje escreve-se um haiku e começamos logo com uma sobranceria esquisita. De repente já vale tudo. Parece que a regra é: se tens Instagram ou mostras o rabo ou publicas um livro. Alguns até vão mais longe e mostram o rabo para publicar um livro. Ainda me lembro quando ouvia o Lobo Antunes a dizer que escrever era muito difícil e dava muito trabalho. Sabia lá ele que o difícil e árduo era ser-se escritor sem escrever um livro. No fundo, ele ficou com a parte mais fácil.

Escrever dá muito trabalho. Eu é que fujo sempre quando sei que alguma coisa dá trabalho, senão até eu me sujeitava a escrever um “Em Busca do Tempo Perdido”, mas em opúsculo.

Nos tempos hodiernos dá a falsa sensação de que todos podemos ser um Rimbaud, que aos quinze anos escrevia versos em latim e aos vinte e poucos anos chateou-se de ser um génio. Não, não. Deixem-se disso. Nem todos conseguimos ser aquilo que os nossos pais diziam sobre nós: “o meu menino é um génio, olha pr’ele, tem dois anos e quando lhe perguntam o nome ele dá a pata.”

Bem, com isto tudo já não vamos a tempo de abordar o tema principal desta crónica, que era: o que se passa com os chuveiros dos ginásios que já nem sequer podemos escolher a temperatura da água? Há um travo de autoritarismo ou lá o que é. O problema é que a água sai em temperaturas impróprias para um ser humano que se preze. Ninguém aguenta com aquilo. Por exemplo, eu agora só tomo banho com maçaricos a ver se me habituo. O autoritarismo nunca fez bem a ninguém.


Nótula em jeito de recomendação:

Este livro: Poesia Grega, de Frederico Lourenço
Este filme: Cavalo de Turim, de Béla Tarr
Este especial de stand-up comedy: Intolerant, de Jim Jefferies

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