OPINIÃO: O Rio que dá à Costa

Romão Rodrigues, 19 anos, Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Desde a mais resguardada memória da infância que oiço falar do Estado do Rio. O corpo docente do primeiro ciclo fomentou essa preocupação em meninos de ranho no nariz e de calças rompidas milimetricamente na zona que delimita o joelho. As secreções produzidas pelas indústrias, a perigosidade das chuvas ácidas para os ambientes marinhos, o descuido e irresponsabilidade da população e dos seus atos grotescos, as quantidades avassaladoras de plástico, as pescas abusivas e os esgotos. A escola primária, regida por uma estratégia inovadora, conferia o palco às crianças, às suas opiniões e aos seus juízos ao invés da aposta nos dinossauros (designação dada aos nossos progenitores). Queriam sangue novo!

Na semana que findou, foi “a gota de água”. O Estado do Rio evaporou, sumiu, desagregou-se. A rarefação foi conduzida por uma militância aquática incapaz de solidificar e gelar os amassos dados à Costa. Um encontro com a Costa equivale a uma carícia de flama ardente, ao beijo incandescente característico de uma paixão tórrida. A intimidade é um “redondo vocábulo” – lembrar um dos oceanos da liberdade porque, a uma certa fação, parece conveniente dissipar – e não se erigiu com a finalidade de expor ou de se autoproclamar sem eira nem beira. Chega a ser paradoxal. Um Rio não tem Costa, nunca teve…

De repente, o fascínio pela oceanografia. O que se faz, o que não se faz, o que se pode ser feito, o que convém não realizar. Existe, por parte deste espécimen, um paradigma fiscal e, de certa forma, regulador da atualidade do maior espaço hidrográfico e dos seus veios viscerais. Incido, pois, sobre o escrutínio marítimo, – outra aceção que, em tempos, se perdeu como D. Sebastião na fatídica noite de nevoeiro – sobre o poder que o exercício da atividade profissional encerra em si, através do espírito combativo e galopante diante dos poluentes de múltipla origem.

Começa a cheirar ao estadismo de outro mar. Não que o Rio pertença ou se identifique com as convicções aí patentes. Contudo, a objetividade e a fisionomia das águas que deixa escorrer colocam em sentido grande parte dos banhistas: como o recurso (in)findável está turvo, lamacento e carregada de lodo, certos mergulhadores, (in)conscientes das necessidades do espaço natural, confinam-se ao mártir. Uma vontade incontestável, a preferência pelo cessar de vez quando ainda se vislumbra uma possibilidade de aprimoramento. Para fazer política aquática, importa saber nadar. Há quem diga que é o requisito mínimo…

Até agora, por mais água que corresse, os que escutavam o espaço onde se insere o Rio, ficavam com a sensação de que, por mais que os peixes debatessem e lutassem aguerridamente com as respetivas guelras, restava e pairava na atmosfera um silêncio incómodo. A partir daqui a oceanografia prolongada demarcará a surdez eterna. Por mais que se goste de ver a água cristalina embater nos rochedos, o som que pontifica esse acontecimento é único e dado à sensibilidade. São duas atividades inseparáveis como – aparentemente – a Costa e o Rio. “É a globalização!”

Por falar em silêncio. Soube, também esta semana, que desaguariam cá ondas europeias. Pelo que oiço e pelo que leio, ainda são algumas ondas. Por dia, chegam 100, mais coisa, menos coisa. Supostamente, as ondas são destinadas a material capaz de mover as diferentes águas do nosso país e regenerá-las, mudá-las e transpô-las, regrá-las e geri-las. Um surf adaptado, um bodyboard sem prancha, um sailing sem vela. A utilização de submarinos também podia culminar em glória, mas gizar uma estratégia duas vezes é apanágio de um país sem originalidade. Não somos assim!

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