OPINIÃO: Morrer Fora da Bolha ou a Tentar Entrar Nela?

Francisco Lima, 22 anos, Licenciado em Direito pela Universidade Portucalense Infante D. Henrique

O Mundo está em constante mudança e o que hoje é certo, pode-o não ser amanhã. Estamos no meio de uma colossal pandemia mundial que, e muito infelizmente, comprova isto mesmo. Temos, de forma mais ou menos interiorizada, noção disto, contudo – e agora atenção!! – será que alguma vez parámos para refletir, à priori, que consequências esta insegurança atual e constante poderá realmente comportar?

Apesar do acima previsto, damos, e sempre demos, muita coisa como um bem adquirido e este tipo de pensamento apenas nos é possível dada esta bolha Ocidental e Europeia, bastante privilegiada, por sinal, onde tivemos a sorte de nascer. Tal bolha, por vezes embaciada, não nos permite ver o que se passa à nossa volta, fora desta Europa. Outras vezes até permite, assim de relance, mas nós escolhemos voluntariamente não parar nem olhar para esse vislumbre. Consciencializarmo-nos da existência desse mundo paralelo, mas que nos envolve, custa, incomoda. Deixa-nos desconfortáveis saber que mais de meio mundo não teve a sorte de, por questões de probabilidade e geografia, nascer dentro da bolha.

Incomoda ligar o telejornal e ver que Alan Kurdi, um menino refugiado sírio de três anos que tinha escapado às atrocidades cometidas pelo grupo autointitulado “Estado Islâmico” na Síria, apareceu morto por afogamento numa praia em Bodrum, na Turquia. As suas fotografias causaram consternação por todo o mundo e comentários como ‘não consigo ver estas imagens’ ou ‘muda de canal’ abalaram e fizeram-nos tremer no conforto dos nossos lares. Hipocritamente, comentários como ‘eles que vão para a sua terra’ ou ‘são todos é terroristas’ são paradoxalmente proferidos por estas mesmas pessoas, aqui sem fazer tremer a voz.

Mudar de canal e tentar esquecer essa imagem não muda o facto de Alan ter morrido afogado, numa tentativa, por parte dos seus pais, de lhe darem uma vida melhor, de tentarem que ele não se tornasse uma criança-soldado, algo que para nós nem é uma opção de vida hoje em dia. Isto não pode ser, propositadamente, esquecido por meras questões de conforto porque ‘Alans’ existem, sempre existiram e existirão, um pouco por todo o mundo e temos que ter noção de tal. Temos, mais do que nunca, de nos mantermos informados e com tal informação tentar fazer o que estiver ao nosso alcance para mudar – a situação, não o canal. Não podemos, mais uma vez, ignorar as centenas de crianças presas em campos de refugiados em ilhas isoladas na Austrália, que, com apenas 5 anos e sem nenhumas perspetivas nem esperanças, são amontoadas e deixadas ao abandono, que manifestam tendências suicidas e depressões por não verem sentido na vida. Não pode, a nacionalidade em questão, ser um fator de tal forma relevante que nos impeça de tentar agir e salvar os ‘Alans’ que estão a morrer, cujos direitos são constantemente violados e cuja voz é silenciada pela língua que falam ou a sua – não opcional – origem. ‘Longe da vista, longe do coração’ dizem. Está na altura de arrumar este provérbio na gaveta e abrir os olhos para o que está longe da nossa vista, mas não o pode estar do coração.

A 27 de fevereiro, a Turquia anunciou que ia parar de impossibilitar a entrada de migrantes, refugiados e requerentes de asilo com rumo à Europa, encontrando estes, contudo, barreiras militarizadas e repletas de medo nas fronteiras da Turquia com a Grécia e Bulgária, fronteiras estas regidas por medidas desumanas que vêm violar a legislação da União Europeia e as leis internacionais. Apesar de tal, os líderes da UE, apoiando tal abordagem, já intitularam a Grécia como o ‘escudo’ da Europa, disponibilizando-lhe meios e materiais para continuarem a fazer o tão suposto ‘bom trabalho’. Em acréscimo temos o já mais antigo acordo, que podemos chamar de milionário, entre a UE-Turquia, desde 2016, cujo objetivo é reconduzir para a Turquia os requerentes de asilo chegados às ilhas gregas, com a falsa premissa de que a Turquia é um lugar seguro para eles. Como resultado disto surgem reportórios onde as autoridades turcas coagem as pessoas a regressar à Síria, espancando-as e ameaçando-as a fim de assinarem os documentos onde declaram voltar ao seu país ‘de forma voluntária’, país este em situação de guerra iminente e permanente.

Dadas as circunstâncias em que este ano de 2020 nos envolveu, torna-se difícil parar para pensar nos outros, contudo, agora e mais do que nunca, é extremamente importante mantermos presente o que é a liberdade, a dignidade humana e o respeito pelos demais direitos humanos. Não é preciso vermos a aulas de História na Telescola para percebermos que são nestes momentos de maior incerteza e medo que se torna mais fácil descorar o respeito por estas liberdades mencionadas, e nem precisamos de atravessar todo um continente asiático ou africano para nos apercebermos de tal, bastando apenas olhar para alguns dos nossos vizinhos europeus. Torna-se, em situações como esta, fundamental termos presente o proclamado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos no seu primeiro artigo:

‘Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de
razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade’.

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