OPINIÃO: Vi(n)de pras vindimas!

Ana Marques, 21 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Pitada de Pimenta

Nasce da terra, do seu solo, da qualidade e das suas caraterísticas enquanto clima diverso, disperso pelas ecléticas e distintas regiões, ora vinha ao alto, ora por patamares, ora por armação pré e pós filoxera, cuida-se com amor redobrado e os calos laboriosos que se enxergam nas mãos, criados das diferentes fases ao longo dos oito meses de preparação, de videira podada, Que isto da vinha tem muito que se fotografe, mas também tem muito que se lhe trabalhe, como também do olho sagaz do produtor que faz com que os bagos, tenros recheios escorridos de um sumo endeusado já desde os primórdios históricos, a bebida dos Deuses, a fórmula para a vida, e onde pés escarrapacham, esmagam à ávida tarefa das meias, como se lhes chama, termos que só alguns podem lá chegar, atenção, fazem, portanto, verter litros em lagares empedrados, trazendo, posteriormente, na confeção que demora, tarda e acalenta as relíquias ao gosto do paladar, produzindo nuvens idílicas que se formam nos calafrios povoados das encostas dos corpos e, como a bem dizer sempre pronunciam os poetas, já dizia o outro, o sábio da simplicidade, pelas palavras que acabo por ditar, lembra-me agora para aqui encatrafiar, e então são elas assim, Se eu pudesse trincar a terra toda, E sentir-lhe um paladar, E se a terra fosse uma coisa para trincar, Seria mais feliz um momento…, e, veja-se, mais à frente, torna a repetir dizeres que me encantam e que considero o encaixe ideal neste contar escrito, Nem tudo é dias de sol, E a chuva, quando falta muito, pede-se.

Aqui, entre os nossos ardilosos socalcos, volumes impiedosos e custosos ao cultivo, um amplo lençol cultural colorido, um traje agrícola com excesso de natureza, como diria Torga, são horizontes dilatados, abertos ao esplendor da alma, trazendo o ardor ao peito que ficara escondido num aclamar fugidio, e, é na Região Demarcada do Douro, conhecida como o território dos vinhos, distinguidos e (re)descobertos pela sua qualidade, designam o país de vinhateiro, o wine country dos comerciantes ingleses. Aqui, tanto o trabalhador como a natureza se fundiram e moldaram mutuamente, sob a forma de paisagens que só visto e sentindo.

Há, como em tudo, as facetas, as obscuras que ninguém conhece, e aquelas que estão feitas de émulo, diante de nossos olhos, dispostas a que olhemos, nos enfeiticemos pela sua exuberância arrebatadora, sem termos o conhecimento profundo do que por detrás acontece e resiste.

Entremos por vindima adentro, sem dó nem piedade, É assim a vida, dizem uns, Pois é, dizem os outros, e ainda há quem expresse com ar penoso, com roupas cheias de esterqueira, um melaço a colar-lhes as roupas às pernas e aos braços outrora límpidos, esboça-se um ar de resignação ao que a vida lhes colocou diante deles, Raios partam na vida do pobre!, e, logo a seguir, vem alguém moralizar o vindimador com ar renovado, bendito seja esse alguém que ainda tem forças para o fazer, ainda que estourado das mãos, das costas, das pernas, do corpo moído, arrancado aos arames, Oh, meu amigo, há quem ande por aí pior!, e é verdade. Esteja atento ao contar que explicarei adiante o motivo da razão dada a tal comentário.

É na Quinta do Cidrô, adquirida pela Real Companhia Velha, em 1972, que algumas vinhas estão a mil pés acima do nível do rio Douro, plantadas pela primeira vez há mais de sessenta anos, onde ando há mais de vinte dias a vindimar, ou, como diria o Gato Fedorento, na apanha da uva, pois já em agosto se cortavam para os baldes as meninas reluzentes de cor clara, as loiras já traziam consigo o ar produzido, não podem esperar por mais, ou é agora, ou passam da hora e para prejuízo basta o deste ano, pois que por aí se diz ser produção reduzida comparativamente com o ano passado. Traz-se, então, a malta para os bardos, pedindo-lhes que deixem de parte as mais escurinhas, que outrora essas malandras apanhar-se-ão andando ao rebusco, Tudo a seu tempo, como se costuma ouvir.

O ambiente é de fazer cortar a uva com a tesoura, se não for um dedo primeiro e em descuido, há muito corte e costura, não fossem as mundividências faltar, vamos lá ver, aqui pode faltar muito, mas se há coisa que não falta é esse corte, é a queira que deambula e tanto ao cochicho trabalha, ora cortando na casaca, ora cortando no cacho para o balde. Nem de todo o mal se faz que, esse, esse também em todo o canto faz a sua falta – e mossa. A cirandar pelos bardos, uma espécie de camião do Somos Portugal, musicando a pimbalheira de toda uma panóplia capaz de ser cantada pelos vindimadores, as gentes até rejuvenescem como a cachopa que quer ser bonita, arrebita, arrebita, arrebita, ou com aquela que pó, pó, pó, o comboio vai a apitar.

Do outro lado do talhão, encontramos caminho com outros parceiros, outras gentes desconhecidas, uns jovens, poucos, coisa pouca, não fossem as vindimas cada vez menos apelativas aos de idade mais tenra, ainda que possamos ver certos jovens a escapar aos estudos, dedicando-se ao que há no campo, Estudasses!, dizem eles, e depois existem uns mais virados para a velhice, carregando todos consigo no corpo o cansaço que não fora deixado pendurado nas almofadas adormecidas da noite anterior, e já se ouve dizer pertinho de mim, talvez seja o burburinho do meu par, São da empreitada aqueles. Coitados!

Levantam-se às três da manhã, os pobres coitados, vejam lá, fazem a viagem e vêm para aqui ganhar um tostão ou outro para depois chegarem a casa à noitinha e regressarem no dia seguinte, dizia uma delas apoquentada, não fossem as lamurias o que mais se ouve por entre a encruzilhada de folhagens e ramagens, albergando consigo um lamento só de olhar, um Ai vindo das profundezas da alma, E olha que são da zona do Porto alguns, Resende também e Baião, ou lá o que é, ainda estão piores do que nós e vêm ganhar metade do nosso dinheiro, é preciso mesmo coragem, porque nem se tem vida, eles lá não têm trabalho e claro que depois se sujeitam a vir para esta zona do Douro.

No fundo, há em todos eles um reclamar adverso devido à dureza e à áspera convivência com a terra, o ardor que se lhe faz em época de verão, carregando pelas costas os quarenta graus – ou mais –, a escassa vida que se tem fora daquele círculo campestre, daí que as pessoas sejam mais humanas e mais simples, ou parolas como alguém ousa falar, felizmente que assim o é, conhecem-se ao longo dos bardos, enquanto partilham histórias e dividem um tempo ansioso pelo chegar do fim de tarde, de hora, para abandonar, regressar ao posto inicial ao pé da família, desejar-lhe uma boa noite, um resto de bom dia e Até logo que já se faz tarde.

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