OPINIÃO: O sujeito coletivo

Francisca Gonçalves, 22 anos, Licenciada em Ciências Políticas e Relações internacionais na Universidade Nova de Lisboa

A sociedade é demasiado complexa para a ela apenas dedicar uma página, por isso, cingir-me-ei a contar uma pequena estória sobre duas generalizadas partes da nossa sociedade, oferecendo a minha opinião sobre a sua relação e metamorfose.

O Ator principal é o Senhor Jorge, que veio à mesa onde eu bebia uma cerveja com um amigo e falávamos aleatoriamente sobre o nosso futuro (“quero dinheiro”; “vou conseguir”; eram expressões que acompanhavam constantemente o diálogo), interrompeu-nos ele ao educadamente se apresentar, não dispensando de explicar quais as circunstâncias que o levaram até àquele momento, do qual tanto se envergonhava: não tinha filhos e todo o seu salário era para pagar as despesas e sobrava muito pouco para poupar e quando é despedido e ninguém o contrata por causa da sua idade, é então obrigado a viver na rua e como queria também ele não pedir dinheiro, amostrou-nos a sua arte, marcadores de livro com desenhos de autores portugueses, muito coloridos – e foi assim o primeiro encontro com o senhor Jorge. O segundo encontro foi bastante diferente, cerca de um mês depois do episódio, vi ele com um andar cansado estava a vender marcadores com odor e marcas de vinho e terra.

Não sei qual é o percurso que a grande maioria das pessoas em condição de sem-abrigo passam, nem pretendo generalizar, existirão diferentes circunstâncias para uns que exigem uma diferente forma de comunicação. O objetivo é atentar à necessidade de pessoas, oferecer-lhes as condições específicas. Esta é uma parte que me irei dedicar num próximo artigo, por enquanto, vou dar ênfase à autoexclusão e processo de exclusão pela sociedade perante estas situações.

A sociedade cria no imaginário de todos os seus agentes três tipos de pessoas em condição de sem abrigo: aqueles que têm vergonha de pedir; aqueles que apesar da vergonha, pedem mas em troca de algo e; aqueles que pedem (muitas vezes um indivíduo passa por ser estas três personagens). Existe hierarquia em todo o sítio, e tudo está relacionado com o teu comportamento para com o agente social principal – o capital: ele é que determina o quanto incluído te encontras na sociedade e o teu papel nela (demorou ao senhor Jorge um mês para que fosse o “sem-abrigo” corriqueiro – de parcialmente incluído para excluído da nossa mente como não pertencente a um nós coletivo) [O senhor Jorge estava também integrado na sociedade, tanto que sentia vergonha de pedir, não queria que o confundissem com “os outros”, não percebendo pois que eles outrora passaram pelo mesmo exato processo.]

Temos que desmitificar a situação e dar a importância que merece. A meritocracia não é ciência certa, nem ciência é, nem de algo empiricamente verificável podemos falar, mas é pois uma construção social que faz com que os membros da sociedade acreditem que por eles próprios, com o seu próprio mérito conseguiram obter lucros e o estilo de vida que o 1% da população tem, acreditando que é mais possível chegar a pertencer a esse núcleo 1%, afastando-se da classe a que pertence e as mais próximas deste. É mais fácil perdermos tudo, do que ganhar tudo (quando concorremos com pessoas que já tudo tem). As pessoas sem-abrigo são vistas pelo sistema capitalista como o erro da produção do capital, nada produzem, pouco consomem, estamos mais próximos de assim estar (pelo menos a grande maioria) do que ascender na ilusória escada social.

É necessário o diálogo da população mudar e erradicarem afirmações como: “eles nem para as casas de acolhimento querem ir” trocando por questionar todos os vértices desta afirmação, muito utilizada no quotidiano (incluindo as pessoa que um dia estarão nesse lado), “Quais as ofertas que existem? Serão suficientes e abrangeram toda a gente? No caso de alguém se recusar, quais os motivos que os levam a preferir tempo adverso a um teto?”.

Neste artigo, a única coisa que procuro manifestar é o descontentamento com a estagnação comunicativa que nos encontramos nesta questão social, progressos práticos foram feitos, no entanto, os mitos continuam e até ganham plataforma partidária, a situação piora e nada com vista a erradicar a pobreza é feita, ainda se procura atenuá-la, mas apenas quando existirem atitudes e políticas positivas e que procurem eficácia, ficaremos sempre nesta corda bamba, que o único resultado da inação é o deteriorar das condições de vida dos indivíduos.

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