OPINIÃO: C[o]aução Psicológica

Ana Patrícia, 18 anos, Estudante

Arrendam-se os apartamentos, as lojas, os carros e dá-se uma quantia previamente combinada com o propósito de cobrir os possíveis e eventuais danos causados, ou seja, uma precaução para o proprietário dos diversos bens referidos e aqueles ainda por referir. Uma parede que vem a precisar de ser pintada, um risco na porta ou um espelho partido que exige conserto são alguns dos problemas que podem surgir durante a estadia ou uso dos mesmos.

Como seres racionais, práticos e cheios de medo uns dos outros, apressamo-nos a assegurar aquilo que é nosso, somos assim, precavidos, talvez desconfiados.

Queremos garantias. Como se um cheque depositado numa determinada conta nos garantisse coisa alguma. A casa é devorada por chamas rápidas e impiedosas. O carro capota e vão-se corações e motores, findam-se simultaneamente vidas, mas o dinheiro é a nossa salvação, ainda bem que nos antecipamos e nos protegemos. Pedimos caução e fiador, só um requisito não bastaria. É o que nos importa.

Saímos para a rua e atacamos sem medo a integridade psicológica do outro, que consideramos ser mais tolo do que nós. As barbaridades que saem da boca dele precisam das nossas para completar assim a idiotice que nos escapa, achando sempre, claro, que somos superiores, podendo calar com senso a inépcia alheia, quando no fundo a trocamos através das gotículas de saliva, carregadas de ignorância, que soltamos durante o discurso turvo de noção.

E agora? Não havendo fiança como é que se salvaguardam os ferimentos direcionados ao ego, ao orgulho e à estupidez?

Somos intitulados de “população racional” ainda que impossivelmente relacionável. Mesmo que comunicando num único idioma não somos dotados da capacidade de compreender as sentenças que nos chegam do outro lado da rua. É por sinal que vêm do outro lado, nunca do nosso, e somos incapazes de atravessar a rua para perceber a visão daquele ângulo, que é, indiscutivelmente, distinto do nosso. Nunca usamos as passadeiras, no máximo fazemos a travessia num local inadequado e tudo por um ajuste de contas impulsionado pelas hormonas caninas da raiva, que ainda coabitam em nós. Não há nenhum abono que nos confira a vacina para estes ataques salivosos?

Que precauções é que tomamos neste caso? Quanto muito olhamos para os dois lados, isto porque temos que chegar ao outro lado inteiros para desinteirar o próximo, é a base da comunicação. É importante referir que ainda somos primitivos e espumamos de êxtase por cabeças cortadas em praça pública. Qual é o valor do sinal que certifica a limpeza do sangue para não manchar a praça tão bem contruída à moda portuguesa, à de Santa Engrácia?

Voltamos à idade média, e arrancam-nos os órgãos reprodutores, cortam-nos os genitais prazerosos, cobrem-nos as cabeças e vendem-nos com ditos amores prometidos. Continuamos rudimentares, a puxar carroças e a lavrar hectares de terreno com enxadas e mãos calejadas. As inquisições voltaram a entrar-nos no pensamento de forma simples e sem questões, aceitamos os gritos do fascismo como desabafos de analfabetos, tapamos os olhos uns aos outros e mais grave ainda, o sol com a peneira, como temos vindo tapando a ditadura que se aproxima com a possibilidade de a negociar. Isto é, uma ditadura negociável, onde o negócio é ter o privilégio de escolher o modelo de tortura quando a censura fizer das suas. Mancha-se a sociedade mais do que o sangue manchou as ruas que gritavam diariamente por chacina, e não há fiador que assuma o preço a pagar por tais injúrias outrora e agora cometidas.

Creio que a única ressalva viável será, de facto, rescindir o contrato com a maioridade e pagar cauções à moda antiga, uma mão bem apertada com o cuspo dos envolvidos. Sanam provisoriamente feridas e arrelias, onde não entram seguradoras nem garantias.

Baseado na distopia moderna

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