OPINIÃO: “Beoti magis firmiato corporis quam ingenii acumini serviunt”

Manuel Ramos, 58 anos, Professor

O meu leitor mais atento não ignora que nos primeiros dias do próximo mês de novembro acontecerá nos Estados Unidos da América mais uma eleição presidencial…

Esta eleição, que será a 59.ª eleição do dito país, opõe o atual presidente, Donald Trump ao ex-vice-presidente do governo Obama, Joe Biden. Estes dois personagens da vida real competem entre si pela vaga de um dos seres mais
poderosos do mundo: o presidente dos EUA…

Estes candidatos surgiram da sua escolha pelos partidos republicano e democrata (os principais partidos), que os escolheram entre diversas candidaturas internas (nas eleições chamadas de “primárias”, em cada partido).

Neste contexto eleitoral, as ideias mestras defendidas por cada candidato para o governo são (evidentemente) conhecidas pelos membros do seu partido, mas não são de conhecimento generalizado entre os eleitores, razão pela qual é realizada uma campanha a nível nacional e organizados debates entre os candidatos para esclarecimento de todos os eleitores.

Neste ano, foram previstos três debates, um no final de setembro, um a meados de outubro e o último, uma semana depois do segundo…

Apesar da importância do cargo e das razões que fundamentam a realização dos debates, o primeiro que foi realizado entre estes candidatos, foi um festival de insultos (e de desrespeito pelas regras do debate, que ambos os candidatos acertaram previamente), pelo que, além de não ter esclarecido os telespectadores, mostrou a (falta de) classe dos adversários…

No caos vivido durante esse debate, houve até oportunidade para fanfarronices que incluíram ameaças ao Brasil, que ficou a saber que, se não «obedecer» às ordens de um determinado candidato, “sofrerá consequências económicas significativas”.

Obviamente, é difícil saber o que acontecerá nos outros dois debates previstos para estas eleições, mas acredito que, apesar das fortes críticas que este primeiro debate sofreu (pelo facto de ter sido agressivo, pouco ou nada esclarecedor e com efeito disruptivo sobre a sociedade americana), os próximos serão semelhantes…

A razão pela qual eu acredito que os demais debates serão semelhantes é que tal postura “dá canal”!

Caso o leitor não acredite nisso, pense um pouco e tente recordar a última eleição que permitiu a vitória de Trump, em 2016 ou a vitória de Bolsonaro nas últimas eleições presidenciais do Brasil… Consegue lembrar de alguma “boa ideia” de algum desses candidatos? Não? E das discussões acaloradas e de baixo nível motivadas por eles? É mais fácil lembrar, não é?

Apresentar boas ideias não é fácil, pois exige, como é óbvio, conhecimento sobre o assunto em causa, reflexão sobre o mesmo, coragem para emitir a sua opinião, discernimento para tentar encontrar uma solução para o(s) problema(s) relacionado(s), mais coragem para compartilhar a solução encontrada e, finalmente, resiliência para não deixar a sua solução ser posta abaixo por invejosos e incapazes, que, por vezes, nem conhecem sobre o que opinam (do tipo “não conheço, mas não gosto”)…

As discussões acaloradas e de baixo nível, por outro lado, exigem apenas que a pessoa não seja mais que um estúpido… Normalmente, estas discussões são protagonizadas por “surdos funcionais”, que, não possuindo qualquer dificuldade auditiva, recusam-se a ouvir os argumentos do seu oponente…

A razão que justifica a existência dos que apelidei de “surdos funcionais” está usualmente ligada ao facto de estas pessoas não saberem argumentar, pois não conhecem realmente os assuntos sobre os quais opinam. Essas pessoas apenas defendem a sua opinião, repetindo “ad nauseum” argumentos que ouviram previamente de outra pessoa, sem necessariamente entender o que significam ou o porquê de terem sido usados.

Uma situação em que estas pessoas são questionadas ou confrontadas, como é óbvio, proporciona situações menos agradáveis favorecidas pela incapacidade argumentativa e a necessidade de vitória na discussão, semelhantes à que vimos entre o Trump e o Biden no primeiro debate presidencial deste ano.

Infelizmente, este tipo de situações é cada vez mais comum, mesmo fora dos debates políticos, pois a população, pressionada pelas redes sociais e pelo tipo de comunicação fomentado, está cada vez mais sujeita a receber quantidades descomunais de informação, que, entretanto, é transmitida de forma truncada e que, por esse motivo, não é assimilada e não gera conhecimento.

Para piorar a situação, a fidedignidade da informação recebida também tem sido questionável, pois, apesar de a quantidade de locais que disponibilizam conteúdos pela internet ser gigantesca, a sua credibilidade é considerada suficiente apenas num número pequeno de locais. Além disso, a enorme quantidade de informação recebida, desvaloriza o seu valor e faz com que a informação que realmente interessa esteja dispersa no meio de muita informação inútil.

Os políticos reconhecem esses problemas e, como é óbvio, tentam retirar algum benefício desse conhecimento…

Assim, mesmo não sofrendo de problemas de incapacidade argumentativa como o comum dos mortais (não nos esqueçamos que eles possuem equipas de especialistas que estão continuamente a dar conselhos e preparam-nos para e durante o debate), simulam essa dificuldade, pois desejam reforçar a proximidade com os seus eleitores. Essa situação, acaba por gerar as situações caricatas, demonstradas aos eleitores nos debates…

Quando o amigo leitor vir o seu próximo debate, não se esqueça disso!

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