OPINIÃO: Nós vamos todos morrer e, à partida, falecer

Ana Marques, 21 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Pitada de Pimenta

Nascemos, vivemos e morremos. Surgimos, desenvolvemos e murchamos. Brotamos que nem monstros roxos a ser puxados através de um canal vaginal, uma imagem bastante pitoresca, não fosse ela farta de choros, rasgos, emoção e sangue derramado. Baba-se o médico, baba-se a progenitora, baba-se o progenitor (se ele for assistir, se ele entretanto não tiver desmaiado, ou se ele não tiver ido comprar tabaco). Apagamos que nem cinzas, que nem cadáveres putrificados, uns escondidos e enterrados pela terra, misturados com o bicharoco, do mais diverso bichanar, tolhidos, frígidos, acolhidos na casa do povo, outros resguardados em emoldurados potes, encostados a um canto de um móvel da sala de estar.

Do que seria se alguém ousasse lançar um piropo a esse pote, Tem aqui um pote bem luxuoso, e às tantas já está a mulher a chorar a morte do homem e não a emocionar-se com tamanho enaltecimento à pechincha que ela comprara com mimo fúnebre na feira de São Mateus.

Nascemos para morrer. Vivemos para sobreviver e, depois, morrer. Morremos, e pronto? Morremos, e pronto!

Nascemos e, aliado a esse nascimento, rapidamente nos ligamos à ingenuidade típica de um bebé. Ganhamos ramagens, raízes, galhos, folhagens que nem uma árvore que espera o seu último dia de pé. Que é como quem diz: nascemos numa nuvem agradável, manchada de ilusão e, quando dela caímos e damos com a cara no asfalto, assustamo-nos com a deceção. Assim nos vamos desenvolvendo e construindo. Crescemos. Trabalhamos. Trabalhamos tanto que perdemos a noção do que é, afinal, viver. Ocupamo-nos de tal ordem, que esquecemos que também estamos aqui para viver. O que é viver, afinal de contas? É passar a vida a trabalhar, chegando à reta final de bater as botas, como jantar uma sobremesa e ela terminar e nos ter sabido a tão pouco. Está feito. É assim a conclusão que nos dão. O spoiler da vida é a morte, é o seu fim, tal como qualquer outra coisa. Trabalhar… e morrer. Estar aqui, para deixar de estar de um momento para o outro.

E é neste pensamento que me embrulho. Vejo a Praça da República, sento-me por baixo das arcadas de pedra, ao pé da torre do relógio e do grande arco, onde outrora serviam de mercado para a vila inteira, era aqui o coração da vila por outras razões, por razões comerciais, por outras que não as de agora. Aqui, sentada, relembro os dias em que, párvulos, fedelhos pueris e inocentes rebentos, esbaforiam até altas horas do dia, jogando, saltando, correndo, brincando, cantando, gritando, se calhar, daquilo a que realmente se chama viver, era exatamente isso que eles faziam, desprovidos das preocupações baloiçantes. Penso, para além de tudo isso, que, haverá um dia, em determinado momento, em que não poderei mais ver este ninho, este sítio que me viu crescer. Sim, chegará o dia em que será a última vez que estarei a ver a Praça, da qual nunca mais a verei. Aliás, num outro momento que não este, esteve aqui alguém, tantas gentes, tantas pessoas, outras que não estas que agora aqui vivem. Em determinado século, aquele que este antecede, alguém estaria a comprar fruta aqui e alguém a estaria a vender. Hoje, tudo isso em parte desapareceu. Hoje, é o centro histórico, em exposição, livre a todo o turista que vem visitar e vai com as amostras solitárias em viagem, e é apenas mais um monumento qualquer que para aqui está no pensamento das velhas que, todos os dias, com as compras a carregar-lhes os braços débeis, passam como se nada valorizassem, às tantas já nem olham devido ao hábito. E, no fundo, valorizam, porque se lhes retirassem a Praça, as arcadas, a igreja, o café da dona Aldinha, o museu mesmo em frente, a falta que lhes faria seria de comover a alma mais penada, tal como assim aconteceu com as crianças que, a pouco e pouco, foram saindo daquelas ruas, morando nas periferias da vila e, de cada vez que ali regressavam, fosse por que motivos fossem, passeando por aquelas bandas, todas elas os recebiam de braços abertos e faziam questão de demonstrar a saudade que a solidão, agora, lhes consome. Por mais reclamações que se pudessem ouvir das velhacas sem dó nem paciência para gaiatos traquinas que tudo faziam para chamar a atenção de tudo e todos, até dos turistas, malditos que andavam sempre com pulgas, de um lado para o outro, ora era às risadas dentro da igreja, fazendo carrancas uns aos outros dentro da instituição religiosa, ora também aos seus cochichos sobre o padre nos bancos lá no fundo.

Tudo isto para dizer que, de facto, nada importa quando se morre. Até chegarmos a esse Destino, fingimos dar importância, mas, depois, nada importa e, o curioso, é vivermos sabendo que nada disto importa. Quando as velhinhas morrerem, a Praça sentirá menos carinho e atenção. E sentirá metaforicamente falando, como é evidente. Quando eu morrer, a Praça ficará na mesma, igual, intacta, sem chorar a partida de quem tanto a estimou. Quando outros morrerem, estará a Praça aqui? E a dona Alda, que será feito do seu café? Fechará, definitivamente? Quem venderá aos ingleses, aos franceses as suas bugigangas, os seus postais, os panos de renda, as malas e carteiras de cortiça, as cerejas no verão e os rebuçados e os torresmos no inverno? O que restará, quando todos morrerem e nem as ruas se fizerem acompanhadas pelos velhos mortos? Serão as ruas despidas, ainda mais solitárias, mortas, vazias? Quem se recordará da dona Bernardete, quem se recordará dos Peneiras, quem se recordará dos Bananinhas, quem se recordará da Moscarda, quem se recordará de quem foi e jamais voltará? O local será este, o mesmo, ou sofrerá as modificações do tempo? Aflige que nada seja mais do que isto: pensarmos e deixarmos de pensar, andarmos e deixarmos de pensar, vermos e deixarmos de ver. E continua-se a aceitar o que nos foi aqui posto. Sim, posto. Dado, só se for a natureza, essa que, estando à nossa mercê, gratuita, toda tão natural, preferimos ignorá-la, mas pagamos para ver e ter e sentir algo que não nos é dado. É-nos impingido e, nós, impingidos nos deixamos ser. Sei lá que raio nos trazem essas coisas de que gastamos dinheiro, porque eu nem sei, realmente esquecem-me quaisquer sensações, deverá ser porque, entretanto, me esquecera de o saber. Compra-se, a agradabilidade urge e, novamente, diante da fugacidade do que temos e do que nos faz verdadeiramente falta ou interesse, desvanece, talvez por não nos ter marcado profundamente, para além de um vício tóxico se ter tornado.

A Praça, esse recôndito turístico, sendo mais do que isso, que me aperta só de a olhar, traz consigo um daqueles álbuns de fotografias, repletos de recordações e lembranças. E isso, meus caros, isso é tocar na nossa profundidade. Aproveitemos enquanto estivermos vivos; porque nós vamos todos morrer e, à partida, falecer.

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