OPINIÃO: Diógenes e a liberdade de expressão

Herman José Ribeiro

Consta-se que o primeiro happening público fora realizado por Diógenes da barrica. Numa hora de grande movimento na praça de Atenas, entre comerciantes, filósofos e políticos, Diógenes masturbava-se à vista de todos, enquanto bradava: “Ah, pudesse eu satisfazer o meu estômago de maneira tão simples”. Ora, esse despreendimento com a vida e com o politicamente correto (embora não soubesse o que era o politicamente correto – à frente do seu tempo como qualquer bom artista) leva-me a cobiçar Diógenes. Liberdade essa que só poderia existir, é claro, numa democracia. E não vivemos nós numa democracia?

Há uns tempos experimentei a maçada que é ver as minhas palavras policiadas e descontextualizadas. Aconteceu do seguinte modo: ao passo que mantinha conversa com uma pessoa, havia outra que escutava muito atentamente, qual PIDE, tudo o que na conversa resultava. Normalmente essas pessoas nunca são convidadas para conversas, logo acham-se no direito de entrar na das outras. Numa resposta a algo que minha colega falava, eu disse “Olha, mais vale isso do que prostituíres-te”. Num instante, o mundo onde vivia já não era o mesmo mas um mundo mais amorfo. A minha conversa foi de imediato interrompida por quem escutava desde o início como se a conversa fizesse parte de algum grupo público de Facebook. O andarilho achou que tinha de intervir e disse: “qual era o teu problema se ela quisesse prostituir-se?”. Eu respondi “sjbebb556sbsxaxywoosowhdio”, porque pensei que se tratasse dum Neandertal com problemas de comunicação. Até reproduzi alguns grunhidos, imagine-se. Depois fiz-me perceber “não, não, não, aquilo que eu disse nada tem que ver com o facto de eu ter algum problema com a prostituição”. Aliás – aqui entre nós os cinco – não tenho qualquer problema com a prostituição como a personagem que mais me entusiasma na Bíblia é Maria Madalena. Maria Madalena é a prova de que prostituta e santidade são duas entidades sagradas.

Por fim, acabou a frase rotulando-me de preconceituoso. Até parecia que eu andava a fazer campanha pelo Chega. E sem que desse conta andava eu no meio do Nuno Melo, José Miguel Júdice, Hitler e por aí fora. Pedi que justificasse o porquê de me estar a chamar preconceituoso. Ela respondeu à altura de quem tem a certeza absoluta que Galileu Galilei estava profundamente errado porque assim era “a minha opinião”. E contra opiniões não há argumentos.

O problema que aconteceu comigo é o problema do novo analfabetismo que está em crescendo. E aleija que esse perigo – onde a direita era protagonista – passou a incluir uma fração da esquerda também. Coisa inquietante.

Após uma longa discussão de permeio, a pessoa terminou dizendo “não é a sociedade que está mais sensível, mas é que antigamente podia-se dizer tudo”. Sabem onde não se podia dizer tudo? Nas ditaduras. Como é que acertaram? E a minha preocupação, tal como da de Mike Hume, são “os ataques políticos e culturais à liberdade de expressão virem frequentemente não de extremistas islâmicos, mas de quem no Ocidente se considera liberal ou de esquerda.”

A pessoa que me chamou preconceituoso não entende que, primeiro: não podemos ouvir ou ler alguma coisa e descontextualizá-la a nosso bel-prazer; segundo: é ignobilmente perigoso adotar a atitude da literalidade (confesso que muitas vezes cantei “Atirei o pau ao gato, to”, sem ter qualquer vontade de atirar o pau ao gato – estranho porque gosto muito de gatos); terceiro: não se coloca rótulos sem lermos mais de dois livros porque depois cometemos o erro de questionar a idoneidade ideológica de Noam Chomsky, como incrivelmente aconteceu há poucos dias. Ou como sucedeu ao comediante anti-semita Dieudonné M’bala M’bala, detido por alegada “apologia do terrorismo”, depois de escrever no seu Facebook: “Esta noite, sinto-me Charlie Coulibaly”, uma junção do lema Je Suis Charlie com o apelido do assassino do supermercado kosher, Amedy Coulibaly. Podemos argumentar que a declaração foi apenas uma piada, ou o seu inverso, mas –pasmem-se – não passam de meras palavras. E é extremamente perigoso puni-las. E é a única palavra, “Coulibaly”, (a minha foi “prostituição”) que condenou o seu enunciador.

As pessoas acham que não têm o direito a ser ofendidas. Que há limites, para além daqueles que aparecem na Constituição. Enfim, ainda há quem ache que “liberdade sempre, mas”. Aquela adversativa… Eu vou defender sempre o direito da liberdade de expressão e se um dia essa liberdade acabar faço como Diógenes fez numa hora de grande movimento na praça de Atenas, entre comerciantes, filósofos e políticos. Diógenes masturbava-se à vista de todos, enquanto bradava: “Ah, pudesse eu satisfazer o meu estômago de maneira tão simples”.


Nótula em jeito de recomendação:

Este livro: Colheita de Inverno, de Vítor Aguiar e Silva (Vencedor Prémio Camões 2020)

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