OPINIÃO: literatura diarística servida como diária

Márcio Luís Lima, 21 anos, Estudante de mestrado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Isto das crónicas nem sempre é fácil – e as crónicas literárias costumam ser facílimas. Sentamo-nos, pegamos numa caneta ou no teclado do computador (não aceito a ideia de que alguém escreva no telemóvel, é quase “desumanizar” o escritor) e escrevemos. E não há muitas restrições. O único obstáculo é mesmo o escritor. Ora para mim tem sido complicado porque me “censuro”. Nenhum tema me parece bom, depois também há a questão do tempo… há umas quantas pausas para cigarros e um par de minutos antes de adormecer, são a soma total de tempo gasto para o ócio. E nesse tempo perco-me com detalhes inócuos. Faço uma “salada russa” de projetos e ideias – maior parte falidos, abortados – e esta coisa das crónicas acaba por ficar para último plano.

Mas para quê então escrever a crónica? Para escrever! São rascunhos bem conseguidos, isto é, rascunhos que sobreviveram à censura do autor e chegam a público (ainda que este público seja pequeno). Uma crónica não dura muito tempo na maior parte das vezes. É escrita, lê-se no próprio dia, ou com dois ou três dias de atraso (no máximo uma semana e mesmo assim já perde força). Depois compila-se tudo e dá um livro girinho. Mas também quem é que compra livros de crónicas? Claro que se o autor for o Lobo Antunes ou o Manuel António Pina… para a crónica voltar a ganhar força, depois da tal datação, é preciso um nome. Pois bem, o tema que ultrapassou a acérrima censura hoje é nada menos que um pouco de escrita diarística – queixo-me de bagatelas, migalhices, futilidades, minúcias (e reparem que tudo quer dizer o mesmo) e vou enchendo a folha.

Levantei-me lá para as nove e meia, fiz um batido de banana e depois tirei um café de cápsula. Reparei que o Maradona fazia anos e a par disso descobri uma música nova “La Vida Tombola” do Manu Chao – artista que já conhecia dos meus tempos de miúdo – e veio-me à ideia de fazer uma playlist biográfica. E o que é isto? Juntei umas músicas que em algum momento da minha vida me deixaram feliz, triste, sentido, enfim, que me “toquem”. A ideia era para ser concluída com vinte e cinco músicas, mas entusiasmei-me e juntei mais de duzentas e vinte músicas (e continua em actualização – para os mais curisosos chama-se “BIOGRAFIA” e está no Spotify, é pública).

Tenho me entretido a fazer uma rúbrica no meu portfólio digital – “das páginas rasgadas” – que consiste basicamente em “comentar” um livro à minha escolha, citar algumas partes e dar a conhecer novos livros/autores à malta digital que convive virtualmente comigo. Decidi começar este tipo de comentário porque quando quero comprar um livro que não conheço fico sempre na dúvida e se existisse algum tipo de comentário assim talvez me ajudasse. Claro que há as críticas, mas não há críticos para todos os livros e tem uma estrutura diferente; o meu objetivo não é ser crítico, nem perto disso.

Posto isto, li um livro do Mário Cesariny, o “Jornal do Gato”, em pouco mais de trinta minutos (porque o livro tem cerca de cinquenta páginas) e fiz o tal “comentário”.

Depois fui para as livrarias. Aqui em Viana há pouca coisa, que é como quem diz: fnac e Bertrand. E é sempre divertido ir à Bertrand porque já me conhecem. Trouxe um livro da Hélia Correia – “Um Bailarino na Batalha”. Fui a um quiosque perto do café onde costumo ler e escrever – no café também me conhecem, já lá sou cliente frequente há pelo menos seis anos – compro um maço de Português 100’s, uns novos cigarros maiores, e por curiosidade trouxe a revista LER e o Jornal de Letras.

E o resto é “pro bucho” – tosta mista, cola zero, um café cheio, uns quantos cigarros, salteei apenas entre os artigos que me interessavam, agradaram-me as traduções de quatro poemas da Louise Glück e regressei a casa.

Não haverá mais força nesta crónica que a força que ela projeta na minha vida – mais um dia. Podia pôr para aqui a dar conselhos culturais, mas de vez em quando estes desvaneios diarísticos também têm a sua importância – que é a de não ter importância nenhuma senão a de preencher as páginas e o tempo. Se o leitor estiver a fumar um cigarro com a mão direita enquanto segura o telemóvel com a mão esquerda e faz scroll com o polegar espero que já tenha terminado e que tenha tido algum proveito do seu ócio.

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