OPINIÃO: Goitacazes

Manuel Ramos, 58 anos, Professor

Nestes tempos de “Covid-19”, que nos convida a ficar em casa e a ler mais, gostaria de saber se o meu caro leitor conhece o romance de José de Alencar, chamado “O Guarani”?

Esse romance foi publicado inicialmente com o formato de um folhetim, no ano de 1857, no jornal “Diário do Rio de Janeiro” e o seu sucesso foi tão grande que no fim desse ano foi publicado como livro pela primeira vez, com alterações mínimas em relação ao que fora publicado antes.

Esse romance gira em torno dos protagonistas «Peri» (um índio da tribo dos goitacazes) e «Ceci», a filha de um abastado fidalgo português e um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro. Nessa trama de época, o autor voltou o seu olhar para a origem do Brasil, abordando particularmente as relações existentes entre colonizadores e colonizados, destacando com algum romantismo a cultura indígena e transformando o «Peri» numa espécie de herói medieval (valente, corajoso, idealizado)…

A escolha da tribo dos goitacazes pelo autor não foi feita ao acaso pois esta tribo povoava o imaginário popular brasileiro pelos seus feitos realizados cerca de duzentos anos antes…

Para esclarecimento do leitor, os goitacazes pertenciam a uma nação indígena que viveu (até pelo menos a metade do século XVII) na região costeira do Brasil, entre o atual estado do Espírito Santo e o atual estado do Rio de Janeiro. Estes índios, em contraste com os das demais nações indígenas brasileiras, eram mais altos e robustos e possuíam pele mais clara. Também revelavam um comportamento digno de nota, uma vez que eram conhecidos por serem muito arredios e selvagens e ainda por serem canibais. Assim, eram muito temidos por todas as outras nações indígenas e também pelos colonizadores portugueses, que reconheciam o seu domínio nas áreas onde habitavam.

Alguns relatos sobre estes índios referem que, em situações de evidente desvantagem, eles optavam por fugir velozmente, alterando o seu comportamento. Contudo, quando eram confrontados com uma situação na qual a desvantagem não era tão notória ou quando a situação era tão má que, apesar da derrota ser irreversível, a fuga também era impossível. Nessas situações, revelavam toda a sua força, coragem e furor, atirando-se contra os seus oponentes, mesmo que fossem antes mortalmente feridos, de uma forma decisiva e contundente.

Como é fácil concluir, este comportamento fez com que esta nação indígena tenha causado muitos prejuízos e humilhações aos portugueses, sem nunca terem sido subjugados por estes (apesar de todo o seu poder bélico).

No entanto, os goitacazes acabaram por ser dizimados… E pelos portugueses!

Neste ponto, o leitor deve estar a pensar “Este indivíduo deve estar maluco! Primeiro diz que os portugueses nunca conseguiram subjugar estes índios e depois diz que os índios foram dizimados pelos portugueses! Afinal, em que ficamos?”.

O que acontece, meu caro leitor, é que os portugueses sabiam que, naqueles tempos, existiam muitas doenças na Europa provocadas por bactérias ou por vírus, que ainda não existiam no Brasil. Entre essas doenças, a varíola, provocada por um vírus, que era mortal e que matava na Europa cerca de milhares de pessoas por ano… Sabiam também que esta doença já havia sido utilizada por Hernán Cortés e Francisco Pizarro nas suas conquistas…

Desse conhecimento resultou a utilização do vírus dessa doença para ganhar a guerra contra os goitacazes que, curiosos, tiveram acesso a roupas contaminadas com o vírus da varíola que foram “esquecidas” pelos portugueses em determinados locais estratégicos. Num par de anos já não existia mais a nação indígena dos goitacazes! Daí esta tribo ser tão popular quando este romance foi escrito e publicado!

No meu entender, “O Guarani” merece ser lido pelo leitor! É uma ótima obra literária que, de certa forma, homenageia uma nação de índios aguerridos e orgulhosos que não foram vencidos por homens mas sim pelos vírus, contra os quais, não tinham defesa!

Enquanto pensa se vai aceitar a minha sugestão de leitura, amigo leitor, não esqueça que nesta época em que pensamos nos nossos entes queridos já falecidos, caso saia de casa, deve manter alguns hábitos: «usar a máscara da forma adequada», «evitar aglomerações ou ajuntamentos com pessoas que não pertençam ao seu agregado familiar», «lavar as mãos com frequência, em particular, quando tocar em objetos fora de casa, que possam ter sido tocados por outros» e «evitar sair de casa, caso não seja estritamente necessário».

Afinal de contas, o “Covid-19” não é tão ruim como o vírus da varíola, mas já provou ser também mortal, quer para as pessoas, quer para a nossa sociedade. Se não o respeitarmos e não tomarmos providências para evitarmos sermos contagiados por ele e/ou contagiar os outros, saturaremos rapidamente as nossas defesas enquanto cidadãos e, tal como os goitacazes, rapidamente pereceremos.

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