OPINIÃO: Diário de 2021

Herman José Ribeiro

Dia 14 de fevereiro de 2021

O mundo acabou. Estou ainda mais sozinho e na ausência de tudo chora-se a saudade. Pessoas passeando era costume aqui na Terra. Não ouço barulho e o cheiro tem cheiro diferente. Recebi no natal a esperança num envelope vermelho. Meus pais talvez achassem que algum dia haveria de precisar dela. “Guarda-a”, diziam. Se eles ainda cá estivessem, querido diário. É sempre a lamentação de quem nunca tem a certeza que as nossas pessoas também deixam de existir.

Choro sem cessar e leio a Bíblia. Recordo-me de me terem perguntado porque estaria eu, tão jovem, lendo a Bíblia. Curiosidade em saber mais sobre o meu ateísmo, irmã. E agora sei-o, que diferença faz? Tudo acabou e resto eu. Não há ninguém para dizer se tinha razão e que diferença faz se tive ou não. Eu pequenino e a minha avó a brincar “se Deus existe, avó, porque não te deram a eternidade?”, envergonhada perante o Todo-Poderoso, que tudo vê, assentia esfregando a mão na minha cabeça como quem engana Deus com um gesto de ilusionismo.

Agora só estamos nós, querido diário. E um gato preto pendurado no parapeito da janela de casa. Brinca com a morte como quem brinca com um amigo imaginário. As patas patinham e nós os dois num jogo de sonambulismo que dura séculos. Pobre gato que mais parece o velho Crates de Tebas que passou os dias na pobreza rindo e escarnecendo de tudo.

Dia 21 de Maio de 2021

Há três meses que o estilhaço do mundo não me deixa dormir. O vazio ecoa de tão vazio que é. Há três meses que leio o mesmo livro – o Eclesiastes. É de um ceticismo perturbador que ameaça as fragilidades da fé. Tudo é vão, diz o narrador. Como é que o sábio morrerá junto do tolo, pergunta-se. Isto é, que diferença faz ser sábio ou ser tolo se a escuridão cobre os olhos de ambos. Não sou um homem religioso.

Eis tudo o que é: vacuidade das vacuidades. A Terra continua vertical troçando o horizontalismo de quem um dia lhe pertenceu e agora jaz. Qual dos deuses provocou este conflito? Apolo, filho de Leto e de Zeus ou o Deus Cristão ou Buda, ou outro qualquer, ou nós, semideuses ainda que mortais, simples Pelidas lançados ao sofrimento e esperando a imortalidade num comboio que nunca mais chega e a velhice que vem sempre cedo de mais. Não vejo utilidade em sair do ventre materno. Porquê tudo isto se a vida nem poupa os mais corajosos. O divino Aquiles matará Heitor e o fado matará Aquiles. Haverá sempre quem nos mate, concluo. Os deuses não sabem brincar.

Estou sozinho e o gato preto nunca me abandona. Resta-me rir.

Dia 30 de Dezembro de 2021

Há um ano, a humanidade gritava pela vacina, Joe Biden preparava-se para a Casa Branca e o PSD entendia-se com o Chega. Há dez meses que o mundo acabou. Imagino se o mundo continuasse. Prefiro assim: sem mundo, sem gente, sem Chega.

Sou o único sobrevivente e o único que conheceu Platão, Nietzsche, Cervantes, Shakespeare. O que interessa tudo isto enquanto o gato gateia, o sapo sapeia e o galo galeia. O que tem de interesse os Caprichos de Goya, a Ética a Nicómaco ou os filmes de Bergman se tudo é vão se tudo é ruínas se tudo é nada.

Não sei se depois de amanhã haverá mundo, mas se houver, de acordo com os tracinhos que desenhei na parede que resta de minha casa, será dia 1 de janeiro de 2022.

Acostumo-me à morte como Diógenes acostumava-se ao frio abraçando estátuas cobertas de neve no inverno.

Dia 31 de dezembro de 2021

A morte ergue o cetro e tenta levar-me primeiro e depois o gato preto. Quando estamos definitivamente a começar a viver, morremos, disse o velho Teofrasto em seus últimos minutos. Possivelmente segredando a um gato preto e o gato preto ouvindo-o, riu.


Nótula em jeito de recomendação:

Este livro: O Infinito Num Junco, Irene Vallejo

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta