OPINIÃO: Porque não escrevo mais crónicas?

Márcio Luís Lima, 22 anos, Estudante de mestrado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Porque é que não escrevo mais crónicas? A crónica é um bicho complicado e simultaneamente o mais simples do mundo literário – não requer nada mais do que alguém que as escreva (e posteriormente alguém que as publique).

Ao autor não se pede a eloquência de um poeta, nem o rigor de um romancista. Não se supõe a tecnicidade de um ensaísta, nem um estilo tão próprio que se identifique ao longe quem lá vem. Então porque não escrever mais crónicas? Aliás, porque não escrevemos todos crónicas?

Não são entradas de diários, nem cartas públicas. Não são relatos, ainda que por vezes experienciem a tangível realidade. Nem histórias fantásticas, mesmo que inventadas na profunda raiz da mentira. As personagens são tão reais quanto o leitor quiser.

Por norma devem ser universais, mas a exceção faz a regra.

Já a paciência de conjurar palavras numa folha ou teclado não está para todos. É o “eu podia fazer isso, mas não quero”. A opinião requer demasiada atenção e estruturação e a crónica, por vezes, não requer opinião nenhuma. Requer tão pouco que o comum mortal não se dá ao trabalho de tentar escrever uma.

Dura tão pouco que é esquecida em breves instantes. Quantos leitores lerão a crónica? Ás vezes inquieta-me esta curiosidade “há mesmo alguém que lê?” – certamente, mas assim como a crónica, a dúvida é esquecida em breves instantes.

Assim sendo, porque não escrevo mais crónicas? Tempo, oportunidade, temas? Pois, caro leitor, também não sei. Quando penso na crónica e na sua estrutura tão amórfica e livre – a típica página em branco – pendo para uma deliberação tão selvagem que me perco na restante azáfama do quotidiano: “ah, podia escrever sobre as gotas que caem constantemente do cilindro da cozinha! Mas porque é que caem? Ora deixa cá ver se consigo resolver isto.” E vou lá resolver com quatro palhinhas, unidas umas às outras para evitar o respingo – conclusão: a crónica passa ao lado.

Devido ao seu carácter tão simples, o assombro do abismo de possibilidades atormenta o primeiro rascunho, ou a primeira frase. Há que saltar e arriscar ser ridículo, afinal de contas é só uma crónica com pouco mais de três leitores.

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