Veganismo e fitness: será possível juntá-los?

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O mundo do fitness e da alimentação saudável tem-se tornado moda; mas será que todos entendem bem e na sua plenitude o que é ser saudável?

Já há alguns anos que se tem ouvido falar cada vez mais no veganismo, um estilo de vida e alimentação que veio revolucionar os dias modernos e a forma como muitos encaram o mundo no seu dia a dia. No entanto, muitas são as opiniões e partilhas relativas a este assunto e é em discussões sobre “ser saudável” e “ser consciente” que elas mais divergem.

De modo a desmistificar todas as ideias que envolvem esta questão, o Jornal Referência trouxe como convidado ao mundo da informação alguém que baseia o seu conhecimento e a partilha dele em estudos científicos, tendo recentemente lançado “o primeiro livro a nível mundial que junta a ciência do fitness, saúde e veganismo”, como assim o afirmou.

Rafael Pinto, de 24 anos e natural de Braga, licenciado em Direito e, atualmente, mestrando em Direito da União Europeia; candidato pelo PAN Braga à Assembleia da República e porta-voz distrital; vegano há cinco anos; praticante de musculação; autodidata em questões de nutrição e saúde (como o próprio se designa); e conhecido pelo seu canal de Youtube em nome próprio, onde divulga informação científica relacionada com saúde, nutrição, veganismo e fitness desde 2017.

O jovem entrou no mundo do fitness, com os seus treinos de musculação, com apenas 16 anos. Já na altura, a sua preocupação com a alimentação e a nutrição era grande e, muito impulsionado pelo tipo de desporto que praticava, adotou uma dieta típica entre os culturistas – rica em produtos de origem animal; e assim se manteve durante os três anos seguintes. Até essa data nada estava mal e conseguiu obter todos os resultados que pretendia; até que um dia, ao fazer uma das suas pesquisas sobre nutrição – algo que fazia regularmente, de maneira a manter-se informado e sempre com a melhor dieta possível para si e para as suas necessidades -, algo mudou.

Segundo Rafael, “num dia absolutamente normal, estava a fazer uma pesquisa no Youtube sobre nutrição, como habitual, e foi recomendado um vídeo do Dr. Michael Greger, intitulado em português «Alimentos como medicina: prevenindo e tratando as doenças mais comuns com a dieta»”. “Nesta palestra, extremamente científica, ele mostra os dados que comprovam que a dieta pode ter um grande impacto na nossa saúde e que, ao eliminarmos os alimentos processados e reduzirmos ao máximo os de origem animal, podemos prevenir as principais doenças que assolam a nossa sociedade”, continuou.

Para este jovem, na época com apenas 19 anos, esta foi a primeira vez que se confrontou com a ideia de que podia não ter, até então, adotado uma dieta tão saudável quanto pensava, tendo mesmo acrescentado: “Fui também confrontado com a ideia de que não precisamos de produto de origem animal para sermos saudáveis”, algo em que nunca havia pensado.

Rafael Pinto, após esta descoberta, chegou, então, à conclusão de que “é possível viver e ser saudável sem comer animais”; uma vez que, ao longo das suas pesquisas, nunca conseguiu, segundo afirmações do próprio, encontrar “nenhum argumento racional que conseguisse justificar o consumo de carne”. Entretanto, já passaram cinco anos desde que o atleta entrou no mundo do veganismo.

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A mudança

Mudar nunca é fácil para ninguém, seja para melhor ou pior; o ser humano é quase “alérgico” à mudança, sendo uma espécie que gosta de se manter na sua zona de conforto, pelo menos, a maioria. No entanto, Rafael, após ter-se deparado com tais descobertas, sentiu necessidade de mudar esse aspeto da sua vida; porque, tal como o próprio indica, o veganismo não implica só uma alteração alimentar: “o veganismo é um estilo de vida que procura reduzir o impacto nos animais ao máximo. Não comemos nada de origem animal, não usamos nada de pêlo ou pele e não usamos produtos cosméticos e de higiene que tenham sido testados em animais”.

Questionado sobre esta transformação e quais as implicações que teve no seu dia a dia, o youtuber afirmou que não foi tão difícil quanto havia pensado que ia ser, uma vez que, na sua experiência, “não mudou muita coisa, foi apenas passar a comer ainda mais vegetais e frutas e substituir a proteína animal por proteína vegetal”.

“A ciência diz-nos que não parece haver vantagens nem desvantagens quando comparamos uma dieta vegan saudável com uma dieta omnívora que também seja saudável. O problema é que poucas dietas omnívoras são saudáveis.”

Uma vez que já tinha atingido resultados muito bons até à altura em que modificou o seu estilo alimentar, o seu aspeto físico não foi onde sentiu mais diferenças com este novo regime mais saudável. Segundo Rafael, aquilo em que mais reparou foi precisamente uma mudança interna: sentia que conseguia recuperar dos treinos com mais facilidade.

No entanto, e de acordo com afirmações prestadas pelo próprio Rafael, as maiores dificuldades nesta mudança, não se refletem nas possíveis alterações que se sentem (quer interior, quer exteriormente), mas, sim, na pressão social que é sentida, por se ir contra o dito normal; mas também acrescenta que, hoje em dia, “é mais aceite”.

Relembra que, no início, a pergunta que mais lhe colocavam era sobre a proteína – onde a ia buscar -, especialmente devido à prática de musculação, ao qual ele refere “as leguminosas, o tofu, seitan e o tempeh como excelentes fontes de proteína” e ótimos substitutos à de origem animal.

Contudo, Rafael Pinto não deixa de realçar que, nos dias de hoje, há mais informação acerca do tema e que Portugal é um dos países onde, atualmente, é mais fácil adotar uma alimentação vegana, devido à tradição de uma dieta semi-mediterrânica, onde já há o hábito de comer “muitos vegetais, cereais e leguminosas”; a juntar ao facto de que nas cidades já existem “dezenas de restaurantes veganos ou com opções vegetarianas”.

A sua contribuição

De modo a conseguir ajudar mais pessoas com este tipo de informações e a par do seu canal de Youtube, onde vai partilhando referências científicas associadas com a cultura vegana, de forma a “combater a desinformação em relação às dietas e saúde em geral e os mitos do veganismo em particular”, Rafael Pinto já publicou um e-book (“Fitness – O Guia Científico Completo”) e, mais recentemente, um livro (“Saúde e Fitness Vegan”). O primeiro surgiu da necessidade de compilar tudo o que aprendeu ao longo destes anos de treino e “de combater a falta de informação nesta área”. “Era algo que faltava em Portugal”, afirmação confidenciada pelo atleta. Já o último, que consiste na compilação de “três anos e mais de 500 vídeos no Youtube”, é “o primeiro livro ao nível mundial que junta a ciência do fitness, saúde e veganismo”. “Era algo que eu gostava de ter lido no início”, conta.

É neste seguimento que surge também o seu interesse pela política, sempre com o intuito de lutar pelas causas em que acredita – sociais, ambientais e animais -, com o objetivo de “deixar o mundo um bocadinho melhor”.

“O meu objetivo sempre foi e continua a ser fazer chegar informação ao público geral que pode salvar milhares de vidas, humanas e animais.”

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