OPINIÃO: Hipocondríacos de todo o mundo – uni-vos

Herman José Ribeiro

Aproveito a crónica para esclarecer uma dúvida aos meus mais íntimos leitores. Sim, sou hipocondríaco. Termo do grego hupokhondriakós que significa Vanessa Maria mas também hipocondríaco por causa das últimas sílabas.

Manifesto-me agora, mas a tempo, creio, porque acredito que não devemos ter medo de assumir. Assumir seja o que for: que se roubou, que se matou, que se é hipocondríaco. O ato de assumir é das mais bonitas manifestações catárticas a par com o final da peça de Sófocles. Édipo cega-se, eu assumo-me. A diferença está no ponto de vista.

Este é o meu momento de saída do armário e por isso enfrento dolorosas debilidades psicossomáticas e físicas. Há quem maneje a olaria possuindo um só braço, eu administro ad infinitum chusma de doenças. É claro que ainda não sou um hipocondríaco como deve ser, isto é, como esperava que fosse. É um caminho progressivo – aos poucochinhos, para nomear a semântica precisa de um técnico de saúde. Sem hesitações vejo-me a aguardar aprovação clínica. No entanto, desde que comecei a escrever a crónica já possuo sintomas de quem tem abcessos cutâneos, amigdalites moderadas e de quem está grávido. Se bem que acho improvável ter contraído amigdalite, dada a minha cautela com as correntes de ar. Mas o resto acredito porque vários são os sezões.

Há um livro chamado Three Men In a Bout, de Jerome Klapka Jerome – mais conhecido por Jerome K. Jerome – em que o narrador de um modo facecio explora a sua hipocondria num reductio ad absurdum. Momento no qual passo a contar: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito. Momento no qual passo a narrar: o narrador, confrontado com uma doença leve dirige-se à biblioteca do Museu Britânico para investigar sobre sua maleita. Retira da prateleira um livro sobre doenças e inicia a procura. Distraidamente acaba por ler o livro na íntegra e constata que é possuidor de todas aquelas doenças uma vez que acredita ter adquirido todos os seus sintomas: desde malária e cólera à insuficiência renal crónica. Há, todavia, uma doença que o inquieta, ironicamente não a tinha contraído. Essa doença é artroses nos joelhos. Isto para dizer que foi preciso ter lido o livro para perceber que eu, em oposição ao narrador, também contraí artroses nos joelhos. Não há maneira de passar incólume a tanta maleita. Acordo com uma apendicite e adormeço com peritonite extensiva à lá Migueis.

José Rodrigues Migueis no seu livro Um Homem Sorri à Morte – com Meia Cara, a páginas tantas questiona-se sobre o que é ser hipocondríaco “O que é um hipocondríaco? Será a obsessão das doenças uma expressão do temor da morte – ou dum exagerado apego à vida?” Eu acho que um hipocondríaco é alguém que com o temor da morte se apega exageradamente à vida, não porque gosta dela, mas porque é o único lugar em que se pode ler um bom livro.


Nótula em jeito de recomendação:

Este livro: Uma História da Leitura, Alberto Manguel
Esta série: Gambito de Dama, Netflix

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