OPINIÃO: Uma ignorância a mais

Ana Marques, 21 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Pitada de Pimenta

De pé se arrastam pés frios que nem frieiras às mordidelas, mais parecem dentes a mordiscar a carne mal sentida devido a gélidos encostos que se alocaram e ali se depositaram como castigo, nem os caturnos salvam pedras de gelo, todo o Poderoso lá em cima tenha piedade de quem vê crescer as geadas reluzentes, ao relento de mais uma noite mal dormida, mas quê, pensa ele que a azeitona dissipa magicamente das oliveiras e não se tem de dar ao calo por horas ou quê, hã, pois seria assim um milagre que aquecedores andassem alojados nos corações humanos para ao menos nos acostumarmos ao ardor frígido com o qual namoramos enquanto nos deslocamos nas ruas cheias de (vários) vazios e pessoas duplamente mascaradas.

Com os chinelos de quarto felpudos, desloco-me até à janela da sala, onde posta dá a visibilidade para aquele que é o antro de onde nada vivo e tudo vejo e pressinto. Antes não fosse essa consciência e essa realidade assente desta forma. Foge daqui, cabeça bem pensada e tão penada…! Há toda uma vida lá fora da qual insisto em não fazer parte, ser parte; não por apetite, atenção; não que eu não queira ali viver; não que eu não vá querer fazer parte de um mundo que tudo acontece e nada parece fazer interessar. Antes assim fosse.

Desvio o meu caminho para os aposentos e, como se de doença padecesse, sobrevivo aos dias cinzentos que o outono consigo trouxe neste dia, só neste dia, pois o outono deste ano tem trazido dias com lampejo solar, de sol que encandeia as vistas e as lava e lhes traz certa esperança que a tanta santa e boa gente falta. Os estendais bem que dele se aproveitam, as senhoras que nele se empoleiram para os encher já estão ansiosas por dele se aviarem; e as roupas, os tapetes estão em exposição, agarrada cada peça à sua mola, colorida ou de madeira, mostrando ao vizinho, mostrando a quem passa e quem do olhar faz mais que um simples desvio carrancudo. Se por descuido lá se vai a mola para o passeio da rua, Que carvalho, estando a dona da mola a descer os degraus apressada, na busca pelo destrambelho perdido, está ela a chegar e já outra pessoa da mola se apodera e no regaço a leva para prender os panos da cozinha esburacados também no seu estendal com vista para sabe-se lá onde.

Bom, mas isto são episódios que outros dias me revelam, porque hoje vai ali uma velha a caminhar lentamente com os sacos das compras a baloiçar-lhes os braços – diz-me a janela deste cubículo, claro –, descaindo para ambos os lados as débeis e escassas forças que esperou ter com a velhice a bater-lhe à porta. Ora, e bateu com tal força, que estática permaneceu até reconhecer que nem os pés mais andavam, só se arrastavam, como os meus. Veja-se, danado recado seja, todo o corpo boia que nem o barco rabelo no rio Douro em tumultuosas águas. Pouco lhe resta mais que as roupas que traz, farrapos de velha, vá, diga-se o termo para que conste, porque se de restos lhe apontarmos, até o cabelo passou de validade, grisalho e desfeito que nem mero cordel, esvoaça subtilmente conforme a falta de bravura do vento, diga-se que, portanto, seja praticamente um desistente da tenra idade que jaz faz décadas, tal como os ossos que os comprimidos persistem nos estalidos irrecuperáveis. Malfadado daquele que à força toda do tempo continua a viver sozinho…

Oxalá algum membro da família ali chegasse de surpresa e nos sacos lhe pegasse, e, ali acompanhada, imagine, vislumbrava a mudança colorida das árvores, o secar das folhas crocantes debaixo dos pés, o aroma a fogueiras acesas dentro das casas distantes…

O aconchega, com certeza, levaria no peito.

E se da vida não sobram apenas os contos de fadas, eis aqui um exemplo. Leva a solidão embalada por dentro, com as rugas salpicadas no rosto simpático e afável.

O mundo segue o seu percurso como se nada fosse, fingindo em nada reparar e muito menos olhar.

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