OPINIÃO: vale a opinião, não vale os feitos

Márcio Luís Lima, 22 anos, Estudante de mestrado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Ultimamente a indignação social passa pelo “ficar bem na ficha” – para colocar isto em pratos limpos, o que se passa é o seguinte: a quantidade abismal de pessoas que partilham determinadas posições nas redes socais apenas para o “ficar bem” ou pelo “politicamente correto” até me faz querer que a sociedade se encontra dividida entre os monstros vadios de um lado e pelos eloquentes aristocratas do outros.

Só que, analisando bem, um a um (hipoteticamente falando é claro, seria muito difícil perceber este fenómeno singularmente) não são assim tão corretos. Por exemplo, normalmente estas pessoas não estão nem para um lado nem para o outro nas “confusões” em causa. São neutros que, de tão neutros, querem ser mais que isso.

Pendem para as discussões nas redes sociais, cheios de razão, com argumentos bem estruturados, tais como “o senhor é um burro” ou “cala-te pá”, e depois, na mesa de café, segurando o smartphone rachado com os dedos trémulos, comunicam aos colegas inconfidências gravíssimas – o oposto daquilo que defendem nas redes sociais.

Não diria que são os clássicos “justiceiros sociais”, mas antes os “neutros que querem ser mais que neutros”. No seu curto círculo contam com opiniões insignificantes que ninguém dá ouvidos, e para que algum tipo de afeto e emoção chegue até às suas vidas aplicam-se em post virtuais, catando primeiro qual é o lado mais “popular”.

Ora, inicialmente pensei que este fenómeno era mais voltado para pessoas mais velhas que simultaneamente se “chateiam” nas caixas de comentários de jornais sensacionalistas (sem nunca ler mais que as manchetes) e segundos depois não estão mais para “se chatear com isso”. Apercebo-me agora que também há muita gente mais nova que cai neste flagelo – as manchetes são o sacrossanto deste tipo de pessoas.

É deveras perturbador estar num café, tranquilamente a ler “O infinito num Junco” da Irene Vallejo, por exemplo, e na mesa da frente ouvir o Tóninho em confidência ao Zé as trinta e duas pessoas que estiverem no seu aniversário na noite passada, a qualidade da erva que lhe ofereceram e ainda o quão irritantes são os “bófias” que pararam o seu Honda Civic de 2003 com vidros fumados e lhe “chatearam a moina” quando ao mesmo tempo partilha a foto de um aglomerado de pessoas que o seu professor da primária pôs no Facebook com a sensibilização de terceira “tenham noção, irresponsáveis”.

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