OPINIÃO: Carta aos vizinhos ignóbeis

Márcio Luís Lima, 22 anos, Estudante de mestrado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Talvez uma crónica não seja o local ideal para me queixar deste tipo de problemas – já recorri também às redes socias como o Twitter – mas parece-me necessário abordá-lo com mais afinco que meros 280 caracteres virtuais nas redes.

Vivi a minha vida quase toda em apartamentos (os meus primeiros três anos de vida foram numa moradia, mas não tenho muita recordação, como seria expetável). No meu primeiro ano de faculdade vivi numa casa partilhada com oito rapazes (atenção, a casa tinha quatro pisos é algo que se pode assemelhar a uma “república” na terminologia estudantil coimbrã, portanto os quartos eram como pequenos apartamentos num prédio minúsculo).

Entre Viana do Castelo e Coimbra nunca tive muitos problemas com vizinhos (já com colegas de casa…) – mas o meu ponto principal ao escrever esta crónica vai num caminho diferente: o da boa educação.

Quando entro no prédio e um(a) vizinho(a) está, por exemplo, a verificar a sua caixa de correio, é hábito meu dizer “bom dia” ou “boa tarde”. Não faço conversa fiada, não pergunto como vai, nem muito menos me queixo do tempo, mas tenho o mínimo de bom senso para o cumprimentar – chama-se boa educação. E não o faço por uma “obrigação moral”. Desejo-lhe as “boas tardes” porque o quero mesmo fazer, para dar um “sinal de vida” e porque vivemos numa sociedade que se organiza através do entrosamento social e da comunicação.

É possível vivermos como paredes que se deslocam de um sítio para o outro, cumprindo propósitos alheios, evitando o bom senso e a comunicação? Pelos vistos o meu vizinho acredita que sim. E não é o primeiro.

Qual não é o meu espanto quando me desloco até à porta de entrada para fumar um cigarro (não tenho o vício de fumar dentro de casa e não gosto de fumar à janela, prefiro descer, ver a luz do dia, e até, veja-se bem, pessoas – humanos a quem posso dizer “bom dia”, ou um gatito perdido que me mie se assim o aprouver) e uma dessas paredes que tem uma boca com lábios para o enfeite, passa por mim como uma parede passa por outra parede – sem a mínima palavra, gesto ou olhar.

Estimo muito que essa pessoa tropece no tapete de entrada (ou eventualmente num pé meu, talvez aí me fale). Há duas pessoas assim neste prédio. e já observei que não é uma questão familiar-educativa ou dentro de casa todas são assim: com um certo casal do piso inferior ao meu verifico que o jovem é extremamente simpático, desde os cumprimentos até me segurar a porta, e a sua “divina e majestosa” namorada, certamente na nobreza, não perturba o seu olhar para o vazio com essas coisas de “bom dia”.

Não lhes guardo ódio, guardo antes carinho pelas boas almas que se dignam a ser humanos e a cumprimentar quem está literalmente diante delas na porta de entrada a fumar um mísero cigarro. Mas também não desejo o melhor dos futuros às paredes que não cumprimentam. É possível que esta gente seja do tipo que não acaricia um animal de estimação quando vai a casa de um amigo.

As minhas condolências, vizinhos (que ignoram a existência de outrem ainda que vivam num prédio), pela triste vida que levam. Cuidado com o tapete.

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