OPINIÃO: “Esta história do Racismo já cansa” (parte 768) – diz quem nunca sofreu de Racismo

Francisco Lima, 22 anos, Licenciado em Direito pela Universidade Portucalense Infante D. Henrique

O racismo voltou a marcar golos dentro das quatro linhas. Mais uma vez, Racismo Institucional – 1 // Bom Senso Futebol Clube – 0. Contudo, temos que concluir que não houve grandes surpresas, sendo tal resultado bastante previsível, atendendo ao cenário de mais de 600 anos de infelizes vitórias que o antecede.

Desta vez, e estranhamente, não foi Portugal o palco, contudo, reiterou-se nas redes sociais, e não só, uma posição vincada sobre a temática, desde proeminentes nomes do futebol até entendidos anónimos para os seus 37 seguidores no Instagram. “O Racismo já cansa”, diz a pessoa que nunca sofreu de Racismo; “Se continuarmos a falar tanto de Racismo, este vai acabar por aparecer mesmo”, diz o negacionista convicto. Estas frases de descontentamento e revolta popular são muito comuns por entre a comunidade privilegiada portuguesa, da qual reconheço que infelizmente faço parte. Há que reconhecer a existência do privilégio como um problema que gera desigualdade; há que reconhecer a natureza falaciosa dos conceitos meritocráticos para começar a combater esta realidade estrutural por dentro e não continuar a compactuar, nem a fazer ativamente parte desta. Efetivamente concordo que o Racismo já cansa, a disseminação do mesmo por entre as correntes negacionistas já cansa há centenas de anos. Revoltam-se estes ainda porque agora temos que ser todos “politicamente corretos” e porque “qualquer coisa é já racismo”, não compreendendo que estes comentários e estes comportamentos sempre foram Racismo, estando-se simplesmente a começar a chamar as coisas pelos nomes, simplesmente agora alguém começa a falar e consciencializar que isto não pode continuar; foi o silêncio, até hoje, a banda sonora da opressão. O “politicamente correto” é alguém ouvir comentários racistas durante anos e não ter uma voz ativa para mudar essa realidade. Agora alguém começa a ter a coragem de falar.

O negacionismo mencionado reflete-se na normalização de imensos comportamentos racistas e segregatórios, mantendo-se consecutivamente um sistema opressor que segrega minorias. Dificilmente encontramos alguém que se autointitule e proclame aos sete ventos como uma pessoa racista, tal é, que o primeiro estímulo nacional quando se fala de racismo, é, logicamente, a repulsa, uma vez que intrinsecamente consideramos que tais comportamentos não são racistas, que são normais. É importante termos consciência da falta de noção, em Portugal, do que é o Racismo, do que são comportamentos racistas. Há uma tendência generalizada para ignorar e negar, o problema e tal cultura negacionista repercute-se em todas a estruturas estatais, judiciais, culturais e sociais que constituem a nossa sociedade. Reflete-se tal nos intensos processos de gentrificação, numa perseverante tentativa de segregação de minorias, no seu geral, e em particular, de pessoas negras, estereotipando-se, para tal, no contexto social e cultural, um conjunto de perigos associados a pessoas negras, à cor de pele em si, – o chamado Racismo Biológico -, não se normalizando, consequentemente, uma coexistência entre as diferentes culturas, o que conduz a um maior afastamento, a um aumento da violência.

Falando de factos, o European Social Survey, que constitui é um esforço científico social para mapear as atitudes, crenças e padrões comportamentais das várias populações e países na Europa, vem, por via dos seus estudos e dados estatísticos, prever que cerca de 62% dos portugueses manifestam comportamentos e têm ideais racistas, colocando Portugal de entre os países mais racistas em contexto europeu. Tais preconceitos e ideologias opressoras encontram-se largamente difundidas um pouco por toda a sociedade – variando, contudo, consoante a faixa etária.

O mundo, e as suas respetivas sociedades contemporâneas, foi construído e moldado à base de ideologias de supremacia branca, sendo que, e, todavia, a supremacia branca é, na teoria, um mito, pois não existem raças nem grupos étnicos superiores. Contudo, a crença em que um grupo étnico, ao qual intitulamos de “brancos”, é superior, existe; isto porque, através da colonização europeia, perpetuada e legitimada ao longo de séculos, criaram-se estruturas económicas, sociais e culturais, pelas quais – de forma mais moderada – hoje em dia ainda nos regemos. É, nas aulas de História de Portugal, o período colonial, caraterizado e descrito – ainda atualmente e apesar de todas as contrárias evidências históricas – como a maior glorificação portuguesa, social e culturalmente relembrado e enaltecido. Paradoxalmente a isto, ignora-se que foi, Portugal, o país com maior registo de tráfico humanos e prolação da escravatura da História. Mas atenção, “não somos nem nunca fomos racistas” e continuar a relembrar e insistir nas críticas firmemente apontadas pelo Comité Antitortura do Conselho da Europa, através de inúmeros relatórios e visitas a Portugal, definindo este como um dos países com mais violência policial na Europa, intensificando-se exponencialmente quando a vítima é afrodescendente, só vai gerar mais Racismo. Ignorar é obviamente a solução, porque afinal, tem resultado tão bem até agora.

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