OPINIÃO: Que dezembro é este Natal?

Romão Rodrigues, 19 anos, Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Dezembro não é – decididamente – um mês que albergue e ofereça guarida à poesia. Digo-o eu, a propósito de uma autoridade incapaz de ser reconhecida e da pretensão de lapidar uma (para já) breve sequência construída ao longo dos últimos cinco meses, na mais plena das inconsciências. Talvez a razão de perpetrar tal ato se reveja na exiguidade, na pequenez sentida aquando do folhear da obra completa do sempre alheio Ary (garanto que a aliteração não redunda em insulto ). O supremo deleite que representa lê-lo torna deficitário o esforço em tentar reproduzir algo – a teoria anterior desabrocha numa tese capaz de interessar e prender os diversos ramos da Psicologia.

Dezembro é o mês de celebração cristã, de uma noite tórrida na infame companhia de Maria de Magdala (versão mais recente do Evangelho) e de uma expressão de bolçado aquando do inalar bafiento do bacalhau, que não é carne e muito menos peixe – ao meu lado, no sofá, o estrépito da voz aguda da minha mãe, o raspanete, os olhos a raiarem sangue por “estar sempre com ironias”. “Inorias”, assim é que é! Eu corrigi por uma questão de respeito, audição e pelos presentes passíveis de desembrulho. Um inquérito dirigido a todos os pescadores, com início em Tiago e José, seria capaz de solucionar a problemática que me assola?

Dezembro é uma bomba-relógio. Tic-tac, tic-tac-tic-tac… Podia ser o tinido apreensivo oriundo de um relógio de parede, mas não: é apenas o despertador biológico – com atraso significativo – a lançar o alerta que deixei de constar na galáxia das crónicas pelo facto de o calendário sinalizar dia 21 e nada de natalício ter sido dito ou escrito. (Abre-se uma brecha para uma deixa intimamente ligada aos desenhos animados). “PORQUÊ EU?”, pergunto num grito mais grave e audível comparativamente ao da mamã. Nos anos anteriores, respeitava e aceitava os olhares fulminantes e a chuva de críticas. Em 2020, está fora de hipóteses. A “Fairytale of New York” (benditos Shane MacGowan e Kirsty MacColl) ocupa uma posição na playlist do Spotify desde o primeiro dia do mês.

Dezembro de 2020 será diferente de todos os outros. Dizem-me, frequentemente, que peco pela falta de originalidade. Eu tendo a discordar. Leio crónicas diariamente e – asseguro – nenhuma continha a afirmação que inicia o parágrafo. A Europa, incluindo a cauda – Portugal saúda o resto dos membros e órgãos – repousa sob um véu pandémico, acalenta a esperança da aprovação de uma vacina, sorri porque o interruptor que liga a bazuca aos fios europeus foi acionado e volta a depositar fé na Humanidade – SEF e Ihor Homeniuk estão fora deste acesso de positividade -porque, na América, foi declarada falência política a um bilionário que suplicava fraude fiscal.

Para mim, o Natal não será assim tão distinto. O sofá está moldado, como sempre, à minha estatura e peso e as dúvidas sobre a taxonomia do bacalhau permanecem. Nada de novo…

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta