OPINIÃO: Pim Pam Pum

Ana Marques, 21 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Pitada de Pimenta

Faz-se silêncio na encosta da travessia mais longínqua. Corre o vento, mas tão ligeiramente que se assemelha a um quarto vazio, esquecido, com um ser humano por dentro a terminar a vida em cima de uma cama, repousando de tudo e de mais um dia.

Aviso: silêncio que se vai fazer ouvir o vago, o destituído, o hiato, a vacuidade e todo o trolaró vai correndo que nem barro esculpido. A rixa, por sua vez, corta-se-me, isto inicialmente, porque depois empenha-se por dentro e esvai-se no pensamento.

Ui ai, ali vai, decorai mais um e mais outro, abra-se o corrupio das lengalengas, das bazófias, das voltas e mais voltas, e soltai as que ainda estiverem para vir. Sei lá eu, o olhar tropeça na criança que aparece, embora esteja desinteressado, e é assim que me recordo da pequenez que sou.

Torno a fixar-me. Oiço, mas nem oiço. Abram-se as comportas e tragam as ensanguentadas correntes, arrancadas ao esforço e ao desvario à solta. Credo, credo, salve-se quem puder, cure-se quem conseguir, amarre-se a quem lhe aprouver, que os restantes dos ignorantes dispararão contra o coadjuvante.

Ui, ai!

Ouvia demais, todavia nunca demais, junto do nada, taciturna pela natureza que a alma em diversas plantações brotava ao descuido e à escuridão da vista; perdia o foco, mas nunca a vista, cega, ainda assim, vá-se lá saber como e por quem, tremida que nem penumbra solitária, fugazmente desencontrada pela insensatez, ouvindo aquelas palavras diversas, causas perdidas, significados dispersos e parcos, corridos pelo baloiçar do tempo, num seio desajustado.

Pim pam pum, qual dos demais se desajusta mais e com que Pim pam pum eu calharei no próximo passo mal dado. Nunca mais, nunca mais, insisto cá para mim e para com os meus botões, mas o que é isto, que comida é que ando eu a alimentar este meu pedaço de sensatez, de consciência, se mais não são exíguos miolos, bolores aos magotes e pechinchas corriqueiras encontradas em saldos ali ao pé do mercado das vaidades. É só escolher, à vontade do freguês, olhe como é bela a altivez, olhe como é encantadora a ignorância, olhe como é bela a língua torcida, olhe como é bela a ovelhice pegada, olhe como é bela toda a panóplia de desdém coletiva, olhe como é bela a pieguice e a mesquinhez, olhe como é bela a ociosidade, e poderia eu continuar caso não pensasse que este texto se tratasse simplesmente de uma crónica. Já agora, não queira deslocar-se a este mercado, antes ler a meteorologia na internet e aperceber-se de que o tempo muda, porque assim tem de mudar. As estações recordam-me que mudam mais elas, do que algumas pessoas. Há árvores que, estando elas ali estáticas durante anos e anos, plantadas, sem se mexerem, mudam mais do que certas pessoas que deambulam de ano a ano, parecendo-se sempre com as mesmas ramagens, as mesmas folhas, a mesma cor, o mesmo caule, o mesmo sabor. Heráclito, ainda que tenha razão, aperceber-se-ia de que o que eu digo faz todo o sentido, por mais que eu nem sentido queira ter ao chegar a esta conclusão. Antes andasse tolhidinha de todo, para além de adunca…mas eis-me aqui a rebentar as raízes por todos os lados, arranje-se a tesoura da poda para me vergastar esta truculência.

Pim pam pum, com qual de vós eu não saberei estar a sós. Pim pam pum, tantos que nem com mais um eu saberei em quem fica o jejum. Rosquei, rosquei, a cirandar em conforme e em desconforme, ali ficava o parafuso, rosquei mais um cibo, ali, danada pela exaustão, tornando-me na planta acorrentada à raiz da terra solta. Deixei-o soltar e, em instantes, parei, como se de um derrotado vulto caísse e pousasse desatentadamente sobre um corpo fixo, morto. Atenção que está tudo menos morto, só por dentro, só lá na profundidade que ninguém consegue ver e muito menos tocar.

Salteador daquele que em jeito de discurso ponderava o que lhe corria pela bocarra, altivez de um ser dignificando o seu pensamento aos demais ouvintes, tagarelou em forma de teatral preceito. Ohhhhh, tragam-lhe o palco e a plateia, meus caros, tragam e beba-se o tinto em homenagem! Quem sabe o que soube e o que não saberá por circunstâncias que nada acrescentam, para além de um sólido e intermitente ouvido mouco e seletivo. Ah pois, soubesse eu o que sei hoje…

Dai-me, dai-me mais, dai-me o que vos sai pelo canudo, expressamente aos encontrões e sabichões esgares falantes que eu expresso, vai uma carranca a meio, entretanto sai mais um trejeito, e eu com isso, e todos com isso, quer-se lá saber, Mas é assim, Pois é, cai o pano de fundo, esvai, como sempre, danificado pela cobertura em que me envolvo.

E, assim, fico às escuras, apalpando o chão crespo, barafustando aos ventos, escamoteando-me aos poucochinhos…

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