OPINIÃO: Em nome do meu Interior

Ana Marques, 21 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Pitada de Pimenta

Num dia, cheio cheiinho do diz que disse, farto do foi dito e não dito, extenuado do disse e depois às tantas já nem se lembrava, vira-se o Interior, com estes jeitos frontais que lhe cabem nas fuças, dirigindo-se ao Litoral, Então, meu caro, falas de mim nas costas e nem um saltinho aqui dás? E eis que o Litoral lhe responde, Sabes como é, deve ser falta de comunicação para esses lados… amanhã eu mando-te um fax.

Ah pois, leitores, O Interior esquecido, O Interior do país a definhar, aquele Em nome de um Povo Esquecido, o aqueloutro Para que o fosso Interior-Litoral se dissipe, é o que mais por aí se vê e ouve. Que fazer! O povo, de tanto ouvir tantos dizeres mal feitos, bem como de todo o ambiente melancólico descrito, troca a lágrima pela força do lombo e vai de bucha na mala trabalhar no dia a seguir. Parece cinematográfico, pois parece, arrancam-se as raízes como lhes podem e fazem um tacho num cortejo mediático.

Dá cá umas ganas de nos virarmos para o Litoral, estando-se na pele do Interior, e gritar-lhe das boas, não é verdade? E para quê? Adianta algum grosso? Interior-Litoral não são rivalidades, nunca serão; são realidades e há que ter em conta esses contextos, essas gentes, essas especificidades que compõem cada meio envolvente. Ouve-se alguém? Grilos, no verão, a magicar conforme a escuridão, prendendo um leitor atento, prendendo a vida à terra. Ainda é possível viver-se de tanta amnésia, perguntamo-nos, inocentemente…

E eis que damos corda ao relógio e nos deparamos com a resposta.

Já reparou ali no Presidente, Arminda, diz uma das senhoras, embasbacada com a presença de ilustre figura, e a outra diz, Pois, pois vejo, mas não se me recorda o nome, e a primeira senhora responde-lhe, Ó, é como o outro diz, é o ti Manel! E riem à fartazana enquanto andam atrás da figura. Ao longe, dir-se-ia parecer um vulto…

Ao longo do percurso, alguém lhes oferece prendas como os Reis Magos presentearam o menino Jesus, e é coisa que nunca mais acaba, material aos magotes, é lápis, é porta-chaves, é canetas, ui, muitas, é uma, é duas, Vai de que cor, menina, quer azul ou preta, hã, e uma camisolinha para o verão, não quer, Quero, quero, dê cá que me faz sempre qualquer falta, que lá em casa parece que me desaparecem os panos da cozinha, até parece impossível, veja lá.

Mais adiante, chega a Irene a casa da mãe, toda ela de braços apetrechados, olha o que para ali vai, nem lhe calhe a sovina toda naquele abraço dado, se cai, lá se vão as ferramentas. Vens carregada, filhota, Pois é, mãe, ofereceram-me isto tudo lá na rua quando fui ver o Presidente, Ai sim, Sim, sim, queres uma que te dou para apontares os buraquinhos no papel da revista da renda para não te perderes, Depois dás, disse simplesmente a mãe, enquanto Irene pousava na mesa toda a tralha arrecadada. A mãe, de nome Lurdinhas, deitava o olho mirolho como podia, e voltando-se para o bordado que tinha em mãos, lá lhe pergunta, Então o homem já se foi embora, e a filha responde, Sim, já, Foi sol de pouca dura…

Há que entender, ti Lurdinhas, há que entender que são agendas a seguir. Queima-se-lhes os calcanhares no verão, talvez lhes pesem ardores maiores por dentro. No inverno, mais do que as frieiras, devem ser os ziguezagues que se lhes custam percorrer os caminhos pelo verdadeiro Interior. Ou será da chuva, ti Lurdinhas, será? Então, mas vossemecê não tem carro, ar quentinho virado para os pés, quiçá pessoas que o acompanhem nessa viagem longa, solitária, feita aos encontrões com os buracos e as curvas estreitas que existem pelas estradas, senhor Ministro? Vem cá mais a Cristina Ferreira, do que o próprio Primeiro-Ministro, palavra de honra que se me cose aqui o pensamento.

Ti Lurdinhas, um dia ainda será mais do que uma mera visita. Oxalá não seja o vinho a torná-los embriagados e a fazerem-se esquisitos com as ressacas. Sabe-se lá o que vai na cabeça dessa gente…

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