OPINIÃO: Como estar sozinho?

Márcio Luís Lima, 22 anos, Estudante de mestrado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Crónicas Avulso

Estou fechado em casa há já não sei quantos dias. Como estudante de filosofia que sou, em plena época de redação da dissertação final de mestrado, o que de melhor faço é ler, ler, ler, ler… inclusive até acho que poucos hábitos se alteravam caso não estivéssemos em confinamento. Talvez lesse num café, por exemplo, mas leria à mesma.

Nem todos os livros que leio fazem parte da bibliografia final, mas gosto de pensar que de algum modo me completam, como uma base sólida que melhor me prepara para o resultado final. Nalguns casos, estes autores e as suas respetivas obras afastam-me a ideia de solitude e do silêncio que paira cá em casa. Estar sozinho é desgastante psicologicamente, portanto, para aqueles que não leem e que estão confinados em teletrabalho ou a estudar, o inferno não são os outros, mas a sua própria companhia.

Eu, sozinho, estou na companhia de muitos outros (ainda que isto possa parecer um tanto esquizofrénico) através das suas palavras, testemunhos e ideias. Para além disso, há sempre a presença mediática das notícias e das redes sociais. Estas últimas nem sempre positivas. Há veredas sombrias nos contactos virtuais, especialmente porque pouco exprimem o quanto de nós próprios somos face à mutação da interpretabilidade de outrem.

Tenho ao meu lado um livro do Miguel Esteves Cardoso (MEC), já muito velho e gasto (o livro!), com os cadernos a descolarem-se da lombada. Comprei-o a um casal de alfarrabistas já idosos, ainda em Coimbra, antes do segundo confinamento, por uma bagatela de dois ou três euros. Capa negra, edição da Assírio & Alvim de 1988, intitulado de “Os Meus Problemas”. E sob ele estão as crónicas do Nelson Rodrigues e do Ricardo Araújo Pereira. Todos eles autores muito diferentes entre si com a semelhança da crónica redigida e publicada (em épocas distintas). A curiosidade que mais me apela é a banalidade e a simplicidade com que abordam os temas que à primeira vista não teriam por onde se pegar (pelo menos não mais que dez linhas). As que mais recentemente li, do MEC, apontavam para uma curiosa situação – a da solidão nos portugueses, por coincidência à situação de todos nós.

Para o Miguel, os portugueses estão sempre sós, até quando não estão sós. Não há um espectro positivo na solidão, como há noutros povos, por exemplo. Há uma profunda melancolia que nunca nos permite sentirmo-nos bem sozinhos. Até certo ponto é impossível discordar – nas filas de espera, nos cigarros à porta dos estabelecimentos, nas janelas quando algo acontece na rua… em grande parte destas situações alguém fala mais alto na esperança que outra pessoa responda de volta e em meia dúzia de minutos estejam já a conversar para “passar o tempo”, que é outro modo de dizer “faz-me companhia que eu não gosto de estar sozinho”. E lá se vão acompanhando mutuamente.

Ora, em confinamento não há possibilidade de escapar à solidão (sem quebrar as regras e pondo em causa a saúde pública), portanto para os portugueses será difícil suportar esta ausência. Como eu não sou excepção decidi avançar com a minha maneira de “meter conversa na fila” para “passar o tempo”, através de crónicas semanais – crónicas avulso, se assim preferirem.

Há sempre a esperança que alguma voz responda ou que pelo menos as minhas palavras façam companhia a alguém.

1 Trackback / Pingback

  1. Crónicas Avulso: Como estar sozinho? (crónica) – Beco da Pedra Azul

Deixe uma resposta