OPINIÃO: Novas janelas

Márcio Luís Lima, 22 anos, Estudante de mestrado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Crónicas Avulso

Virtualmente falando, as salas incendeiam com uma facilidade tremenda. Tão depressa “passamos o tempo” com vídeos engraçados como nos emaranhamos numa rede de comentários sem ponto de partida – apanhar o fio à meada é complicado, geralmente a malta desiste a meio e tira conclusões in media res e pouco importa o resto. O confinamento elevou a atividade dos usuários nas redes sociais, como seria de esperar: se não se pode sair de casa, olhamos o mundo por outros canudos.

Ora, este olhar pelo mundo fora não vai muito mais longe que a tasca ao fim da rua, com a particularidade de que a “tasca” é desprovida de paredes ou quaisquer limitações (até mesmo bom senso). As zangas nas redes sociais perdem depressa as estribeiras e arrebatem-se por veredas sombrias – mas não quero falar disto nesta crónica, quero antes falar daqueles que optam por se afastar deste lume localizado. Por mais estético que possa ser um incêndio, para captar a sua beleza é necessária uma certa proximidade e, nesse caso, arriscar-se à queimadura.

Certas redes sociais cultivam a vaidade, a futilidade, a venda de bens materiais “só porque sim”; outras encaminham-se na polaridade politica e no ativismo social, pendendo sempre para extremos opostos num debate inaudível; e ainda há algumas que não se compreende bem o que fazem ou para que servem: inicialmente pareciam inofensivas, com partilhas de notícias e fotos familiares, depois as caixas de comentários metamorfosearam-se em treinos de captação para militâncias políticas ou apologística do racismo-xenofobia-homofobismo-machismo, etc.; moderação, era o que bastava, mas em tempos tão extremos o telemóvel duplicou (ou triplicou) o tempo de companhia e por conseguinte, a atividade do público até então mudo.

O que me propus a fazer nestes próximos tempos: abandonar o culto da rede social e principiar no culto da rede pessoal – parece uma frase feita? É porque é uma frase feita (em cima do joelho, literalmente). Como? Por exemplo ouvindo as principais sinfonias dos principais compositores (tinha de começar por algum lado) – neste momento, enquanto redijo esta crónica, ouço a sexta sinfonia de Beethoven. Pôr em dia os clássicos da sétima arte. E para além disto, luto com o colossal “2666” de Roberto Bolaño e as suas magistrais mil e trinta páginas na tradução portuguesa (quiçá até intercale algumas das partes com o original castelhano).

Não se trata de uma desintoxicação, mas sim de um tipo diferente de cultivo. Uma melhor organização do tempo, voltado para uma zona de menor conforto. Encontramos pontos de semelhança com a nossa imagem ao redor das redes sociais: rimos de tiktoks, concordamos com determinadas opiniões, observamos fotos que nos agradam e por aí adiante, mas esquecemos que há um “determinado algoritmo” que nos volta propositadamente para esse mundo virtual em específico (diferente do companheiro do lado, por exemplo) – para a zona de conforto, a constante bolha (que até certo ponto pode incrementar a ansiedade pessoal) cerrada nos gostos pessoais já solidificados.

Quando pisamos fora destes limites percebemos (ou descobrimos) melhor quem somos. Em pleno confinamento podemos percecionar brechas essenciais para respirar de maneira diferente. Sempre sem esquecer que de nada vale forçar o gosto, apenas o conhecimento – preciso de me forçar a ver um filme que à partida não vou gostar para tomar conhecimento de tal e no fim posso ou não confirmar o preconceito.

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