OPINIÃO: “Ceci n’est pas” uma crónica

Herman José Ribeiro

Não há jeito menos adequado que começar a crónica fazendo uma citação, disse Kant. Por conseguinte, caro leitor do jornal Referência, evitarei esse lugar-comum que é a exibição de aforismos, disse Óscar Wilde. “Ser ou não ser”, enfim… A escrita de crónica dá trabalho. Não estou a queixar-me, atenção, faz parte do ofício, pois até o mais galucho cronista enfrenta obstáculos, mas com a vantagem de estar confortavelmente sentado.

O colunista precisa de conquistar o leitor e o leitor precisa de ser conquistado pelo colunista (a repetição da frase de modo inverso serve para colocar o colunista e o leitor como sujeitos de frase, isto é, em pé de igualdade, isto é, no Olimpo – parecendo que não, ambos gozam dum poder imenso). O cronista escreve sempre com o objetivo de divertir e entreter o leitor. Pois quem fizer o contrário é porque tem razão.

A tarefa do cronista é escrever crónicas. Depois esperar o agrado do interlocutor, a sua aprovação. Nada mais. O cronista é a mais luxuosa prostituta da literatura, vende o que tem para sobreviver, procura nas possibilidades a mais deflagrada sedução. O cronista não quer os seus textos preservados em casa de outrem, tampouco anseia o pó das estantes e bibliotecas. O cronista quer unicamente que o leitor viaje com ele durante o tempo da crónica, e depois o abandone num acelerado delete ou num cesto de lixo.

A crónica é efémera assim como a vida do seu progenitor. Ademais, a vida é o tempo de uma crónica. Ninguém escreve crónicas para exibir a habilidade da sintaxe, revelar a riqueza do vocabulário, atingir a vida eterna, para isso escreviam romances e esperavam a posterioridade.

Súmula: o leitor da crónica lê a crónica, mastiga a crónica, comenta a crónica se a crónica merecer tal prestígio e depois desfaz-se da crónica como a chiclete devidamente mascada que perdeu o sabor. É simples.

Eu gosto de escrever crónicas. Ao escrevê-las recordo-me da minha pequenez e do tamanho do mundo. É um trabalho meramente egoísta de me recolocar na esfera dos mortais. Entrar numa catedral tem o mesmo efeito. A crónica e a catedral partilham os mesmos objetivos: diminuir-nos, esmagar-nos, avisar-nos sobre o logro que é a vida e aquilo que vem depois, o que Sócrates chamava um sono sem sonhos.

Até lá, insistirei em escrever crónicas, as más vão para a gaveta, as razoáveis publico, alguns lerão, os mais ajuizados ignorá-las-ão, e quando a vontade se for, dedicar-me-ei a outra tarefa, quiçá, imitando Herculano que depois de abandonar os livros consagrou o seu tempo à produção de azeite.


Nótula em jeito de recomendação:

Este livro: Meio Intelectual, Meio de Esquerda, António Prata
Este filme: Nostalgia, Andrei Tarkovski

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