OPINIÃO: Desconfio do meu carro

Márcio Luís Lima, 22 anos, Estudante de mestrado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Crónicas Avulso

Como é que o Miguel Esteves Cardoso consegue escrever uma crónica diferente todos os dias? A última crónica que li (a de sexta-feira passada) mencionava uma metáfora com canetas. É preciso uma certa agilidade mental para daí fazer romper uma crónica. As pequenas coisas que me rodeiam e que aos poucos vou observando não têm a mesma destreza do Miguel (algo até que pode ser visto do ponto de vista da sua metáfora com a caneta).

Por exemplo, a desconfiança dos portugueses, ou pelo menos da maioria em que tenho reparado, para com o comando do seu carro. Quantos de nós clicam no botão de fechar o carro e simplesmente viram costas para seguir direção nos seus afazeres? Muito poucos, diria eu, senão mesmo nenhum.

Assim que se carrega no botãozinho para se trancar a viatura, o movimento natural é o de forçar o puxador para ter a certeza de que está mesmo trancado. O carro pode sinalizar com um pequeno sinal luminoso vermelho do alarme, ou com os piscas, ou até com a buzina… ou ainda com todos estes em conjunto, não importa, a pessoa lá vai “puxar o puxador” para ter a certeza: “não vá algum larápio lembrar-se de puxar todos os puxadores dos carros no parque de estacionamento e encontrar o carro do português confiante e desastrado, entrar-lhe pelo carro adentro, fazer ligação direta, arrancar até à oficina do amigo e desfazer em peças para venda a retalho… isto tudo porque jamais este larápio de carros partiria um vidro, por exemplo… ou se não for para roubar o carro ainda me posso arriscar a que me furte o CD de melhores hits do Verão de 2007.”

A verdade é que também o faço. De modo automático e praticamente sem pensar nisso. Por vezes até mais que uma vez, não vá a memória pregar-me uma partida e fazer-me recuar cem metros na dúvida de ter trancado o carro.

Mas de onde é que apareceu esta desconfiança em nós próprios? Quando estamos com alguém e saímos do mesmo veículo a pessoa tem tendência a colocar-nos sobre pressão com a pergunta:

“trancas-te o carro?”
“tranquei”

“tens a certeza?” e depois verbalizamos injúrias para com os botões até chegar ao carro, forçar o puxador, verificar que já estava trancado e voltar com as mesmas injúrias. Porque é que não nos ficamos com a confiança plena de que trancamos o carro? E porque é que, quando estamos do outro lado, colocamos a outra pessoa sobre essa pressão e dúvida? Falando em nome próprio, é uma espécie de “vingançazinha”.

Creio que não haja grande volta a dar. Por mais confiante que uma pessoa seja, quando se trata de comandos de carros e as suas devidas fechaduras todos vacilamos.

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