OPINIÃO: aDeus puberdade

Herman José Ribeiro

Certa quarta-feira, segundo ciclo escolar, meu grupo de amigos não falava de outro assunto senão da puberdade, ou seja, de seus novos descobrimentos. Para gáudio de muitos deles decidi também eu experimentar. No intervalo da tarde, num instante cheguei a casa. Às escondidas e sem fazer bruaá, dirigi-me ao quarto de banho e tranquei a porta. Sentei-me no tampo da sanita. Intumescido com a ideia, desabotoei a camisa, pus-me à vontade e abri o Velho Testamento.

Verdade que já me tinham falado desse livro, mas nunca me passara pela cabeça que a palavra de Deus me deixasse tão humedecido. Por exemplo, recordo-me muito bem das idas à catequese e de ouvir várias récitas solenes de alguns textos, mas em nenhum momento me fez sequer estar perto de um pensamento lascivo, uma ou outra inclinação libidinosa, qualquer obscenidade deliberada. Os catequistas liam apenas os textos que lhes convinham. Porventura fora esse o motivo para que eu só tenha feito a primeira comunhão. Se os catequistas não fossem tão severamente seletivos nos textos da bíblia e nos deixassem ler como deve ser, do começo ao fim, de uma ponta à outra, fio a pavio, cabo a rabo, talvez eu tivesse terminado o crisma. Nessa altura soubesse eu da missa a metade, ainda hoje conseguisse assistir a uma missa inteira.

A minha primeira experiência com a palavra de Deus acabou assim por se revelar bastante curiosa. Abri às cegas um dos tomos e surgiu-me a coletânea de poesia erótica. Achei pertinente. (Então era isto de que falavam meus amigos?) Iniciei a leitura receando, claro, o aparecimento de meus pais (imaginem a vergonha que era encontrarem-me naquele estado dionisíaco).

“Que ele me beije com beijos de sua boca / Pois melhores do que vinho são teus seios”. Portanto, seios e álcool. Começava bem. Mais à frente: “Na sombra dele desejei e me sentei; / E o fruto dele era doce na minha garganta (…) A mão esquerda dele sob a minha cabeça; / E a mão direita dele me agarrará.” Havia muito erotismo e sexo em barda. E fui por lá fora até que terminei a leitura.

Pensei se de facto seriam mesmo esses os descobrimentos de que falavam meus amigos. Afinal… não. Falavam de masturbação, masturbatio, masturbate, sarapitola, bronha, 5×1. Esse tipo de coisa que só vim a descobrir anos mais tarde numa reunião familiar.

Ah! nesse dia… não voltei à escola.


Nótula em jeito de recomendação:

Este livro: Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll
Esta minissérie: Faz de Conta que Nova Iorque É uma Cidade, Martin Scorsese.

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