OPINIÃO: Uma Viagem ao Fim do Isolamento

Márcio Luís Lima, 22 anos, Estudante de mestrado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Numa das páginas da grande obra “Viagem ao Fim da Noite” de Louis-Ferdinand Céline, o protagonista queixa-se de um problema que se calhar algumas pessoas já sofreram: “Eu tinha um focinho embirrento, era o que era.” Queixa-se disto durante uma viagem de barco onde todos os passageiros a bordo o queriam agredir, atirar borda fora ou matar pela simples razão de que embirraram com a cara dela. Nunca falaram com o protagonista e este cada vez menos apareceu em locais públicos. Escondia-se no seu quarto, saltava refeições e até evitava usar a casa-de-banho.

No parágrafo seguinte explica que todos estavam desocupados e fechados em si devido ao tamanho da viagem que já somava trinta dias. Prossegue com uma reflexão social interessante: “Aliás, se pensarmos bem, só num dia dos mais vulgares cem indivíduos, pelo menos, desejam a nossa pobre morte, por exemplo todos os que aborrecemos, comprimidos atrás de nós na bicha do metro, ou os que passam à frente do nosso apartamento e não têm nenhum, todos os que desejariam que tivéssemos acabado de fazer chichi para fazerem o mesmo, até os nossos filhos e muitos outros. É um nunca acabar. Habituamo-nos. No barco este aperto é mais visível, por isso mais irritante.”

Ora, neste confinamento não me sinto muito diferente da personagem semi-auto-biográfica de Céline, num barco onde o aperto visível vai piorando, dando de caras com as mesmas pessoas, mesmas coisas, mesmas rotinas… um cenário cáustico. E acredito que o problema não se estenda somente a mim. Apesar do convívio social estar limitado, estamos em constante conexão social através das redes socais e aí é que se revela o verdadeiro “barco apertado” que Céline descreve.

Como os acontecimentos que poderiam trazer novidades ao quotidiano foram suspensos, os passageiros das redes sociais aprumam todos o mesmo comportamento, em horda. Os mesmos problemas, as mesmas excitações, as mesmas partilhas (este fez anos…, hoje celebra-se a data da morte daquele…, roubaram o meu clube…, outfit of the day…, o que comi ao pequeno almoço…, este versos de um poema cujo autor desconheço e que nunca mais lerei mas vou partilhar porque me identifico muito com a situação em causa ainda que desconheça completamente o contexto mas fica esteticamente bonito partilhar…), as mesmas conversas, etc.

No fundo nada se repete porque nem sequer há conteúdo suficiente para a repetição. É antes uma certa pasta amórfica que se dispõe constantemente sempre esperando… esperando… esperando alguma coisa que nunca mais chega: a terra. O porto onde o barco vai atracar e cada um destes passageiros vai à sua vida desentupindo as características ensimesmadas gerais da insónia coletiva.

Até lá temos duas hipótese, estar do lado dos passageiros embirrando com os focinhos de outrem, desejando a morte do protagonista, (aliando-se assim numa conspiração para passar o tempo enfadonho), ou estar do lado do protagonista com focinho embirrento que se escapa furtivamente a todos saltando refeições.

Eventualmente os passageiros deitam-lhe a mão, mas através da retórica barata salva-se e vão todos beber um copo esquecendo a conspiração. Exceto o homem às portas da morte que foge o mais rapidamente possível para o porto encontrando outro inferno, mas isso fica para os que lerem a “Viagem ao Fim da Noite”.

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