OPINIÃO: Manifesto pela voz calada

Ana Marques, 21 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Pitada de Pimenta

Já avisaram a malta?

O que é que faz falta, quando o entrudo espreita pelo gravelho, ribomba nos nossos ouvidos a voz aos tombos com tom brejeiro, grosseiro, quando começa a estender as amarras e nos engole lentamente que nem Mostrengo, O que faz falta, quando há quem nas ruas chora por miolo, aclame pela piedade dos moucos de quem alapa o cu nos assentos das decisões do país, terá de haver quantos mais choros para que se façam ouvir os que morrem pela voz calada, O que faz falta, quando se é ouvida a voz do povo quando tudo está decidido, sem voto na matéria, O que nos faz falta quando os jovens estão desacreditados, com as ambições aos caídos, recalcadas como latas velhas deixadas no asfalto, que nem vultos tremidos pelas ansiedades que os alcançam de um futuro imprevisto e antecipadamente visto como falhado, O que faz falta, quando nos prometem as melhores condições de vida e nas nossas costas se riem que nem caretos e matrafonas a celebrar o carnaval, na disputa de quem mais come o poder, O que é que faz falta, quando o jornalista não dá voz ao povo aflito, mas sim aos interesses de quem lhes dá o ganha pão, pois que espécie de profissionalismo é este quando damos tempo de antena às desgraças provocadas pelas artimanhas dos outros, ai os corruptos, ai os que estão a desviar os lucros para interesses pessoais, ai os outros malvados, ai os escândalos, ai as efemérides do estrelado, ai as manchetes, ai o nosso dinheiro, ai as nossas vendas, ai, ai, ai, mas, O que é que faz falta, quando o velho só é lembrado na época de pandemia, pois dele precisamos do seu confinamento, O que faz falta, quando os lares encobrem maus tratos e a malta da segurança social abafa a falta de ética, enquanto lhes sugam e lhes chupam os salários chorudos, O que é que faz falta, quando tudo e tanto é para uns, e nada ou quase nada é para outros, O que é que faz falta, quando se debatem personalidades nas redes sociais, contaminando os verdadeiros ideais, O que é que faz falta, quando há quem cego veja mais do que quem mexe os cordelinhos da bolsa, O que é que faz falta, quando nos entregam discursos cheios de bagatelas, rançudos, comichosos, ricos em desarmar quem armas não tem, quando o poder está no sufrágio, quando nos embalam nas palavras, O que faz falta, quando nos deslizam o tapete e nos encostam à choldra do desespero, quem nos desbrava o orgulho e nos arregala os olhos bugalhos, O que faz falta, quando um velho prescinde dos seus comprimidos comprados na farmácia, para poder comer e sobreviver a mais um mês de vida, O que é que faz falta, o que é que é preciso fazer quando tudo isto pareceu agarrado ao mofo, ao bolor dos tempos e dos esquecimentos, e, agora, confrangidos que estamos, nos embebedam com palavras de encanto estudado por feiticeiros, cobradores dos outros, magos de uma maioria que se dizem ser e não são, mas nem todos sabemos, herdeiros da rigidez passada, anacrónica, orgulhosos padres e santos de pau carunchoso, alerta, alerta, está-se em alerta máximo, ouvide, e não se leia o raio do alerta da CMTV, alerta noutra direção, mas alerta para quando, para quando é esse alerta avisado pelo Zeca, a bucha é dura, e mais dura ainda é a razão que a sustém, para quando, quando o icebergue está prestes a embater na democracia e nos deixar enregelados, sem ação e atitude, para quando, já que o caos está eminente, para quando, já que pegaram nas nossas tristezas e melancolias e afogos ardentes sentidos e nos encantaram com promessas gritantes, berrantes, de quem tem o fogo desalmado na carne, e se diz tão quente como as brasas da fogueira, e ao fim ao cabo está-se tão frígido quanto o icebergue…, para quando a salvação brusca ansiada por quem vive esquecido, quem nos resolverá o ódio, quem nos trará a fraternidade de irmãos, quem é que combate quem nos quer dividir e nos destruir, quem é que nos juntará novamente, quem é que nos dirá que o mundo é nosso irmão e não nosso inimigo. E, enfim, quem diria que devêssemos estar, novamente, a estudar a lição, a ler as páginas da história antiga, e nos tivéssemos de debruçar na voz saudosa de Zeca Afonso.

Avisos que se prolongam, porque, o que fez falta, continua e continuará a fazer falta, mesmo quando parecer estarmos de folga!

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