OPINIÃO: Pensar é uma ova

Herman José Ribeiro

Há quem tome por certo que Tolstói antes de morrer disse que era precíso pensar. Eu acrescento que é precíso ler, parar e pensar. Contudo, escrevo o vocábulo «preciso» como sendo uma paroxítona de acento tónico e o leitor regozija-se, não diz nada, pelo que deveria permanecer mais atento e parar e pensar.

A frase do escritor russo, que é genial – não a frase mas o escritor – faz todo o sentido, mas cheira a mofo – não o escritor mas a frase. É evidente que o autor escreveu a frase com o intuito de incendiar as redes sociais. Ele sabia que assim como as calças à boca de sino o ato de pensar seria intolerável no século 21.

«É preciso pensar» é de facto uma afirmação ambiciosa consequentemente antiquíssima, velha, deslocada no tempo. É o equivalente a acreditar que a solução do país é o Passos Coelho. Neste século não faz sentido pensar como também não faz sentido escrever em pergaminho ou usar chapéu de coco.

A nossa era, a era das redes sociais, resume-se a isso mesmo, a não pensar. É isso que nos mostra o deputado socialista Ascenso Simões ao defender a demolição da escultura de Leopoldo de Almeida, Padrão dos Descobrimentos, seguido da remoção dos brasões da Praça do Império. E não duvido que esteja já a pensar em dizimar a estátua de Rodin, Le Penseur, porque é ofensiva e porque nos estimula a utilizar o pensamento e a razão, que são coisas que o deputado não tem por costume usar antes pelo contrário, deus me livre.

As redes sociais não são senão um grande saloon de gente que está farta de si própria e não sabe. Eu, por exemplo, quando estou nas redes sociais não sou eu, mas também não sei o que sou porque não me lembro de ser quando estou nas redes sociais. As redes sociais foram exatamente criadas com o objetivo de fazer das pessoas desconhecidas delas mesmas, pois não há quem acorde sabendo o que se é e quem se é.

Temos, por mais que sejamos os únicos nessa árdua tarefa, de pensar. Tentar outra vez. Pensar outra vez. Pensar melhor. Senão somos sempre vítimas das mesmas armadilhas como o leitor o foi no início da crónica e que novamente voltou a caír ao assumir o vocábulo «cair» como sendo uma oxítona de acento agudo.


Nótula em jeito de recomendação:

Este evento: 22.º edição do Correntes d’Escritas. Este ano através de transmissão em direto via online (portal da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim e no facebook do município)

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