Marta Silva: “Só quem tem um animal de estimação e o perde é que percebe a dor”

Foto: DR

Marta Silva, uma jovem de 22 anos da União de Freguesias de Pedroso e Seixezelo, Vila Nova de Gaia, nunca sonhou em ter um cão, mas a partir do momento em que os seus pais adotaram Boris, “criou uma amizade e um amor” que fizeram-na compreender que sempre que a vida lhe permitisse, iria querer ter um cão.

Em declarações ao Jornal Referência, Marta explicou que Boris foi o único filhote da ninhada que nasceu com problemas de saúde, o que, por si só, não lhe permitiu ter uma vida longa. O boxer tinha cataratas e começou a perder a mobilidade das patas traseiras, motivo suficiente para a família, em concordância com a veterinária, optar pela eutanásia. A gaiense era muito criança quando Boris faleceu, então, a sua morte não a afetou muito, uma vez que “não sabia lidar com aquela perda”. Porém, a jovem contou que a família decidiu enterrá-lo no seu campo como forma de homenageá-lo: “há uma memória que está sempre connosco”.

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Após alguns anos a insistir muito com o pai, surgiu a oportunidade de adotarem outro cão. O dono de Twingo não tinha capacidades suficientes para cuidar dele e estava à procura de uma família que pudesse sustentá-lo, caso contrário, teria de ser entregue a um canil. Marta admitiu que quando o conheceu foi “amor à primeira vista” e que chorou de emoção. Twingo era raçado de husky com pastor alemão, todo branco, com muita energia. A jovem referiu que, quando adotou Twingo, era muito mais crescida e consciente, o que fez com que o husky tenha marcado a sua vida de uma maneira diferente e “ocupado um lugar especial” no seu coração.

“A morte do segundo cão foi ainda mais inesperada do que a do primeiro.”

O animal foi sempre saudável e não aparentava ter 10 anos devido à sua imensa energia. Contudo, Marta Silva compreendeu que algo não estava bem a partir do momento em que Twingo ficava imóvel durante horas no pátio, mas, como tinha muita energia, a família ponderou que a causa dessa mesma imobilidade fosse somente cansaço.

Entretanto, numa noite, Marta ouviu um uivo estranho e deparou-se com Twingo imóvel, “como se estivesse no infinito”. Contactou de imediato o hospital veterinário e disseram-lhe que o melhor a fazer era deslocar-se até lá e, de seguida, contactou o seu pai, admitindo que foi difícil convencê-lo a levar Twingo, pois o pai de Marta “não consegue aceitar quando um animal não está bem, tenta iludir-se”. Ainda assim, a jovem tomou a decisão de levar o cão de urgência para o veterinário e, durante algum tempo, sentiu-se culpada por não o ter levado quando surgiram os primeiros sinais de mudança no animal.

O diagnóstico de Twingo não era favorável, tinha uma anemia crónica, os pulmões não funcionavam e estava em estado de choque. A veterinária apresentou duas hipóteses à família de Marta: gastar imenso dinheiro na realização de análises e em diversos exames ou optar pela injeção de eutanásia, sendo que o seu palpite se baseava em cancro e que era muito provável que essa fosse a conclusão dos exames. O conselho da veterinária focou-se na segunda opção: a injeção.

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A jovem Marta contou ao Jornal Referência que só se lembra de chorar e de não conseguir dizer absolutamente nada: “estava a custar aceitar que iria voltar a eutanasiar um cão, sentia que estava a tirar-lhe a vida e não gostava disso”. Naquele momento, o seu maior apoio foi a médica veterinária que lhe disse que ela própria teve de eutanasiar um cão seu porque não sabia o que se estava a passar com ele.

Marta refere que nunca se esquecerá da frase que a médica lhe disse: “os cães são como as pessoas, um dia têm de partir”.

E assim aconteceu, porque não queriam vê-lo a sofrer.

A jovem refere que “ter um cão ultrapassa qualquer tipo de amizade”, que é “o mais puro dos sentimentos” e que “toda a gente deveria experienciar ter um animal de estimação”. Além disso, considera que só quem tem um animal de estimação e o perde é que “percebe a dor e o tempo que se demora a aprender a lidar com essa perda”.

O pai e o namorado de Marta foram o seu maior apoio após a morte de Twingo, visto que viveu uma fase de negação, em que chegava a casa e perguntava constantemente onde estava o seu cão. Só algum tempo depois é que conseguiu interiorizar que “ele foi feliz enquanto viveu”.

Quando perdeu Twingo, Marta dizia que não queria mais nenhum cão para não voltar a sentir a mesma dor e acredita que “muitas pessoas sentem que estão a substituir o último cão que perderam”.

No entanto, a sua opinião mudou e, hoje em dia, pede constantemente ao seu pai para adotarem um cão pois cada um “é especial à sua maneira e, como os humanos, estes também partem”.

“É necessário viver a vida sem esse pensamento, caso contrário, os animais de estimação nunca têm uma casa e uma família”, salienta.

A jovem considera que os animais têm uma missão e um propósito na vida de cada pessoa e que os seus cães entraram na sua vida “porque Deus ou alguém assim o quis” e acredita “que vieram com o propósito e com a missão” de lhe ensinarem “algo na vida, como o amor, carinho e amizade”.

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