OPINIÃO: A novidade nostálgica

Márcio Luís Lima, 22 anos, Estudante de mestrado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Crónicas Avulso

Há uns anos atrás cruzei-me com um disco de jazz que me agarrou pelos ouvidos. Durante muito tempo esqueci-me da sua existência, porque não apontei o nome nem de quem era. Felizmente, sensivelmente sete anos depois, encontro-o: “Playboys” de Chet Baker & Art Pepper.

Na nostalgia ocorre um sentimento de novidade já expressa na nossa carne, como ler o mesmo livro, conhecendo a história, mas apreender a forma como é contada. É uma segunda chance de sentir a novidade como algo novo, sendo que o novo é já familiar. É também algo raro na vida, especialmente enquanto se é jovem. Pois para experimentar a nostalgia requer-se tempo e conteúdo.

A cada novidade que se suceda agora, se nela não se criar um hábito, ou até mesmo se se der caso de uma ação exclusiva, estamos em vias de gerar uma “nostalgia” futura. E porque é que isto é tão difícil? Porque mais duas coisas são necessárias: que o que se experiencia como novidade seja deveras intenso e, por consequência, não repetir isso. Ora esta última parte é mais complicada, pois tendemos a repetir ações intensas, consciente delas ou não.

Por exemplo, vemos um filme bom e queremos mostrá-lo a alguém, então revemo-lo num curto espaço de tempo. Ou até meramente porque o queremos repetir, mas jamais sentimos a novidade, muito menos a novidade nostálgica porque não houve tempo suficiente. Há certas coisas que requerem um período de maturação, mas são precisamente essas coisas mais difíceis de maturar.

Tenho uma lista mental de algumas dessas coisas que vou “guardando” em mim como uma velha memória, cada vez mais baça, até que estejam no ponto de maturação certo e as possa rever.

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