OPINIÃO: Poesia ao quilo?

Márcio Luís Lima, 22 anos, Estudante de mestrado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Crónicas Avulso

Recentemente li numa crónica publicada no suplemento do jornal Público de sexta-feira que há mais poetas do que leitores de poesia. Inicialmente tive um pequeno choque e refleti sobre isso meia dúzia de segundos. Depois percebi que provavelmente é verdade. O autor da crónica menciona ainda uma “lei” formulada pelo Hans Magnus Enzensberger: “o número de leitores que lê um bom livro de poesia acabado de publicar é mais ao menos 1354” e isto, segundo ele, aplica-se para todo o mundo.

Refleti sobre isto mais uns segundos e também pensei que poderá ser verdade. Ultimamente é difícil perceber o que é que faz um “bom livro” ser “bom” – qual ao estilo do problema ético: “porque é que há o mal e não apenas o bem?” – ora, se o leitor também refletir nos livros de poesia publicados em Portugal há pouca mediatização dos mesmos; tiragens não superiores a 100 exemplares, por vezes chega mesmo até 300 exemplares, mas não passa disso. Para além disso, há centenas de novos autores/poetas a aparecer todos os dias. Assinam um contrato onde se veem obrigados a comprar 300 exemplares da própria obra para os meterem em caixas e os venderem como latas de sardinhas… o objeto nobre, ou pelo menos símbolo de um ferida ainda aberta, vira um simples número armazenado na garagem, um mero título, um espelho do orgulho cego e, por consequência, um fonte de dinheiro para tais editoras.

Quanto ao número de leitores e aos sucessos geralmente acontece de poeta para poeta, ou antes: de poetas para poetas – uma espécie de economia circular onde um determinado poeta compra o livro de outro poeta, faz-lhe publicidade gratuita atribuindo os epítetos de “genial” para quando a sua obra estiver cá fora o mesmo acontecer em sentido inverso. E acontece… no fundo há uma certa rede que, não sentindo a típica inveja ou rivalidade entre contemporâneos artistas, ainda os eleva em pedestais artificiais. Os tempos mudaram completamente…

Por fim, a poesia tem menos leitores que autores porque geralmente é menos compreendida por um leitor do que por um autor. Não acho que isso seja motivo suficiente, sinceramente. Acho sim que determinados autores elevaram a poesia a um núcleo duro e fechado, elitista, fechando a compreensão alheia para além da camaradagem dos epítetos. Enfim, onde a história se torna extremamente curiosa é na inúmera partilha de versos nas redes sociais, por vezes citações com mais de mil gostos. A parte engraçada é que tais citações por vezes são de obras com 100 exemplares em que nem 50 foram vendidos – e desengane-se o leitor que diz “os livros estão muito caros em Portugal”, não estão, a poesia em Portugal é relativamente barata. Por vezes nem atinge os 10€. Tantos livros entre os 7/8/9 € – o problema do consumidor é o “peso do livro”; quando observam uma obra por oito euros com apenas 50 páginas duvidam da compra e pensam: “então aquele tem 300 páginas e só custa quinze, o quilo daquele é mais barato”.

O sucesso de um poema não se pode medir pelo peso do livro, pelos “likes” e muito menos o sucesso do poeta pelas “views” ou “seguidores”, porque o que acontece maior parte das vezes na partilha anónima dos seus versos é a completa ignorância do autor. Os seus versos são usados como próteses socais nas redes para alavancar um certo intelectualismo falso, como a partilha de citações de filmes antigos (onde poucos também assistiram, mas o diálogo é bonito). Os espelhos, as aparências… nada disto pode alimentar o poeta porque não são leitores.

É certo que a poesia não é lucrativa, e não há fama nela, mas há qualquer coisa que resiste na sua criação: um constante voltar por parte de quem a escreve e não suporta passar sem costurar os versos que lhe ecoam na roupa há meses. É uma força para além da necessidade, ainda que no final de tudo o único leitor seja o próprio autor. Ir além de qualquer pretensão pública, epíteto ou “imortalidade”.

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