“A pandemia trouxe uma revisão das competências no mercado de trabalho”

Foto: ACE Junior Agency e Vision Minho Legal Lab

A pandemia da Covid-19 tem vindo a trazer várias mudanças em diferentes setores da vida de todos. No caso do ensino e do mercado de trabalho, tornou-se no novo desafio a combater pelas associações e organizações de universitários, que lutam para complementar a teoria lecionada na universidade, com uma vertente prática. O principal objetivo de grupos como a ACE Junior Agency e Vision Minho Legal Lab passa por criar nos estudantes as soft e hard skills essenciais no mundo profissional, através da promoção de estágios, workshops, simuladores de recrutamento ou case competitions.

Desde março de 2020, a vida no mundo online tornou-se constante. No caso, por exemplo, da ACE – júnior iniciativa que visa preparar os estudantes para o mercado de trabalho e ligar as empresas ao talento da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho -, realizou e realiza eventos como o “Power Challenge”, em parceria com a TUB – eventos baseados em speed interviews – e com a presença de empresas como a Deloitte, EY, Primavera, Balanças Marques, em formato online. Apesar desta adaptação, a pandemia é um dos seus maiores obstáculos, devido à pressão e instabilidade dos tempos, por isso, a ACE admitiu ao Jornal Referência a necessidade da redução em toda a organização.

As ações da Vision – organização de jovens que pretende promover o contacto entre os estudantes da Universidade do Minho e o mercado de trabalho – também foram transferidas para o mundo digital, através de eventos sobre inteligência emocional no mundo de trabalho, o direito e a comunicação social, magistraturas e o mundo do desporto. Outra das mais-valias de todas as ações desta organização passa pela oferta de estágios, sendo que, até hoje, já trabalharam em parceria com a Sociedade de advogados PLMJ e a Sociedade de advogados Gama Lobo Xavier, Luís Teixeira e Melo e Associados.

A pandemia também é um dos obstáculos identificados pelo presidente da Vision e, devido à impossibilidade de contacto presencial com todos os colegas das Universidade do Minho, a promoção de eventos passou a ser divulgada apenas pelas redes sociais. Através da inovação, Tiago Vidal reflete que foram obrigados a utilizar ferramentas e instrumentos que nunca tinham sido necessários anteriormente.

Por outro lado, a ACE comenta a necessidade de conhecer novos dispositivos digitais para o mercado de trabalho, defendendo que “a tecnologia deve servir como um real aliado e não como um elemento facilitador”.

Foto: ACE Junior Agency (Fotografia tirada antes da pandemia)

Segundo uma análise realizada por João Alves, country managing partner da EY Portugal, sobre as perspetivas de 2021, “a EY conclui que as empresas que se adaptaram e deram provas de resiliência serão as mais capazes de atrair o investimento de private equity [capital privado], que, por seu turno, priorizará: a tecnologia, o talento, a responsabilidade social (64% das sociedades gestoras de private equity possuem atualmente uma política de responsabilidade social) e as soluções de investimento tailor made.”

“A pandemia trouxe uma revisão das competências [no mercado de trabalho]. Há um grande foco na adaptabilidade, lidar com problemas, respostas criativas. A rapidez, agilidade são muito importantes e cada vez mais valorizadas”, partilha Inês Cunha, gestora de projetos e formadora da Unlimited Future, com mestrado e experiência na Gestão de Recursos Humanos.

Ao longo dos anos, a entrada para o mundo de trabalho tem se tornado um desafio diário para os jovens, devido à saturação e aumento de competitividade. Segundo o mais recente relatório da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, relativo ao ano letivo 2019/2020, existem 384.391 estudantes no Ensino Superior. A criação de iniciativas, como a Vision e a ACE comprometem-se e desafiam os estudantes a alargar os seus conhecimentos além do ensino lecionado nas aulas, pretendendo tornar-se mais-valias no ambiente profissional.

A ACE partilha que a “universidade acaba por ser um excelente momento para criar um portfólio e demonstrar trabalho e valor”. “A nossa proposta é oferecer um espaço em que seja possível, quase aconselhável, errar e experimentar”, descreve sobre as aprendizagens que proporciona aos estudantes. A organização já conta com um legado de três anos e revelou que tem como “principal objetivo responder às necessidades dos estudantes da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho em ter um maior contacto com o mundo profissional que os espera”.

Atualmente, trabalham com vários cursos, o que “faz com que haja uma evolução transversal em várias competências fundamentais para o futuro”. O método de trabalho e organização da ACE capacita os estudantes para um ambiente empresarial e, com a criação de uma equipa fixa, grupos de trabalho alocados a diferentes projetos e ainda quatro departamentos – Recursos Humanos, Financeiro, Relações Externas e Marketing e Comunicação -, permite “contactar diretamente com colegas de vários anos, cursos e experiências diversas”, o que faz com que “haja uma evolução transversal em várias competências fundamentais para o futuro”, salienta.

Ainda sobre o trabalho desenvolvido, a ACE reflete sobre “as dezenas de horas de reunião e planeamento que convergem em eventos, orçamentos, campanhas de comunicação, ações de recrutamento e tudo o que uma organização necessita para se manter ambiciosa e sustentável”. “Com este leque de tarefas e responsabilidades garantimos uma aprendizagem cuidada e completa”, conclui.

Foto: Vision Minho Legal Lab

A grande ambição da Vision é “trabalhar no sentido de tornar cada aluno no ‘profissional ideal’ na sua específica área”, comenta Tiago Vidal. A criação da Vision Minho Legal Lab surge também pela identificação da lacuna de oferta de uma vertente prática aos estudantes, pois “as atividades e iniciativas que surgiam neste âmbito eram escassas e, muitas vezes, insuficientes do ponto de vista substantivo, não comportando grande novidade ou atratividade”, confidenciou.

Outro dos problemas notado na vida dos estudantes de Direito na Universidade do Minho foi a falta de aposta em: “gabinetes de saídas profissionais, em parcerias e protocolos com empresas e outras entidades empregadoras, com vista a aumentar o nível de empregabilidade dos seus estudantes, fez-nos perceber que não podíamos conformar mais com o que se passava”. Atualmente, os gabinetes de saídas profissionais são apostas recorrentes nas universidades, com o objetivo de auxiliar os estudantes recém-licenciados ou mestres no contacto com empresas.

O segredo da Vision passa pela junção da filosofia do work in progress (trabalho em curso) e de brainstorm de ideias, pois consideram que “há sempre espaço para progredir e aspetos a melhorar” e lutam para um melhor ambiente de trabalho e produtividade e eficácia. A Vision é constituída por uma Direção – um presidente, dois vice-presidentes e um tesoureiro – e quadro departamentos – Jurídico, Relações Externas, Marketing e Comunicação, e Recursos Humanos – com “trabalho autónomo, mas contextualizado, pois, em permanente diálogo e contacto com os demais departamentos”, refere Tiago Vidal. O atual presidente partilha que “esta mundividência e multidisciplinariedade cada vez mais é exigida pelas grandes recrutadoras e entidades empregadoras no momento de selecionarem os trabalhadores e de elaboração das suas equipas”.

Foto: Unlimited Future

Inês Cunha, da Unlimited Future – associação juvenil sem fins lucrativos que se foca no desenvolvimento e preparação dos universitários para o próximo passo -, comenta que as relações criadas e o networking de associações e de todas as atividades extracurriculares acrescentam muito no desenvolvimento do estudante. Já Tiago Vidal admite que o “o feedback tem sido muito positivo e sempre construtivo” e é com base nele que conseguem melhorar e “limar certas arestas”, salientando ainda a relação que mantêm com membros Alumni, pois conseguem que a Vision se estenda além dos anos da universidade e há sempre a possibilidade de aprender mais e com mais conselhos sobre entrada no mercado de trabalho. Por sua vez, a ACE caracteriza o feedback recebido até hoje como muito positivo e sublinha que o “tecido empresarial valoriza bastante estas ações associativas e que está a crescer um sentimento comunitário grande”. A ACE partilha também que proporcionaram ligações entre estudantes e empresas, em entrevistas individuais ou dinâmicas de grupo, com as quais “conseguiram manter relações e ficar com certa vaga”.

Vive-se numa sociedade em constante evolução e os objetivos evoluem à mesma velocidade. A Vision ambiciona uma maior presença no Campus de Azurém e consolidar a sua presença no Campus de Gualtar e ainda criar um local para a discussão de temas atuais. A ACE pretende continuar um caminho alinhado com os seus objetivos, ligando os alunos ao mercado de trabalho. A Unlimited Future pretende apostar em programas criadores e disjuntivos, sempre com o lema de ajudar os alunos a clarificar os seus objetivos e ambições, alimentando o seu autoconhecimento.

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta