OPINIÃO: O vírus vivido debaixo de terra

Ana Marques, 21 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Pitada de Pimenta

Costuma-se dizer que há coisas que não lembram o Diabo, e depois existem outras que não lembram aos menos empáticos. Falemos de empatia a nível de bichezas. Não, não farei aqui um discurso apologista do partido das pessoas e dos animais, mas já que aqui estou a tocar subtilmente na coisa, denoto uma certa inadmissibilidade por parte do partido das pessoas e dos animais em não ter ainda alertado para esta problemática.

Escreve-se, fotografa-se, reporta-se e noticia-se sobre a Covid19 todos os dias, é certo, e também necessário, mais que certo, às vezes até nos torna gente menos paciente, é também algo certo, porém nada do que foi feito até aqui me descansou as inquietações empáticas que com os meus botões fazem furor. São tantas as aflições que nem o casaco consigo apertar. E oxalá que fossem por motivos que não merecem constar aqui. Bom, são tempos complicados estes.

Contabilizaram-se quase 3 milhões de mortos em todo o mundo e, para além de rapidamente associar a este feito o lucrativo negócio que estará a ser para as funerárias, com especial atenção no Brasil, vem-me à memória que existem bichezas sofredoras com este impacto todo – para além dos bichos humanos que somos, que até eu faço parte.

Tudo isto para dizer exatamente o quê? Grande coisa não é certamente, não esperem, mas dizer que neste momento me lembra que é capaz de existir uma enorme azáfama no interior da terra, precisamente por causa da Covid. As formigas, coitadas, sem mãos e pés a medir, outrora delgadas e pequerruchas, na agitação desenfreada de em alinhamento percorrerem-se umas às outras a acartar comida de um sítio para o outro, estão atualmente todas mais que empregadas, no fel e no mel que é receber comidinha da boa e restos que eles julgam ter sido uma regalia ao engano por parte de Deus, morador dos céus que elas jamais alcançam.

Às tantas, vira-se a Formiga Ofélia para a Formiga Virgínia, Tu queres ver que a gente ganhou o euroformiga e ninguém nos disse nada, e a outra nada convencida com a regalia recebida responde-lhe, Tu achas, ó Virgínia, aquilo cá para mim deu raia entre os humanos e agora andam a mandá-los cá para baixo e nós que nos amanhemos!

Mas estas dúvidas e questões quase para além do existencialismo, não são só para gente ocupada. A Minhoca Eufémia reclama que está a rebentar pelas costuras e até comenta o entulho achouriçado com o marido, Tu não achas que eu estou a desleixar-me, Vitor, e o Vitor lá lhe responde com amor e carinho que às minhocas também não escapa, Continuas a mais bela minhoca que existe neste buraco, e a mulher lá se arrebita de novo e pede mais um naco de costas de um ser humano que acabaram de receber há instantes, fresquinho e saboroso.

Há rumores que se espalham mais na terra do que na Terra, e há um que tem vindo a chocar a população das bichezas: diz-se que a Formiga Palmira anda de tal ordem cheia cheiinha, que anda com ideias de seguir à risca as recomendações de uma nutricionista. E, enfim, tem previsões de que esta crise passe apenas depois do seu falecimento, talvez com um abanão ou um mero tremelico que se suceda em Lisboa.

Por outro lado, há questões mais gerais que têm profundamente abalado as gentes rastejantes. O trânsito bichoso tem sido de tal ordem tão custoso, que tem havido um número de acidentes que nunca se havia registado desde o Terramoto de 1755. No outro dia, soube-se pelo Diário da Bicha, pelo testemunho da Toupeira Cesaltina, que nem benfiquista é, que discutiu com um senhor que ia a passar e nem se arredava por causa das suas coxas rechonchudas.

Esta é a realidade de milhares de realidades vistas à minúcia por quem é empático. Eu sou empática, e tu, já foste empático hoje?

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