OPINIÃO: Pedrógão mudou-me. Eu mudei um pouco Pedrógão

Nem todas as salas de aulas têm quatro paredes. Já todos sabíamos. Mas, neste caso, as paredes arderam.

No passado fim de semana, ajudei a (re)construir a casa do Sr. David, em Pedrogão, que tivera sido vitimada por esta atroz e injusta calamidade que assola o nosso país, há anos.

Aprendi a utilizar uma compactadora, mas, mais do que isso, aprendi humildade. (Re)aprendi a relativizar o pior e a valorizar o melhor. São cenários destes que realmente põem as coisas em perspectiva.

O Sr. David reconstrói a sua casa ardida com as suas mãos. Em silêncio. Construiu antes da sua casa uma enorme barragem. Uma barragem para as lágrimas que não pode soltar. Para se manter sólido. Porque a sua família precisa de si. Não falou. Não é tempo de chorar, nem de falar. Suspeito que se começasse não pararia. E, por enquanto, não é tempo para isso. É tempo para construir uma casa. Há prioridades.

Foi a maior e mais clara demonstração da pirâmide de Maslow a que já assisti. Há prioridades. Ter um tecto está bastante antes de lidar com emoções. Acredito que depois de construir a sua casa, o Sr. David possa, finalmente, chorar. Merece-o! Mas, por enquanto, tal hipótese afigura-se-lhe como um luxo ao qual não se pode dar.

O Sr. David é, inegavelmente, um exemplo. É uma personificação dos versos de Rudyard Kipling: “Se és capaz de ver destruído o ideal da vida inteira e construí-lo outra vez com ferramentas gastas (…) Sem que ouça um suspiro quem seguir ao teu lado (…) Se assim fores, serás um Homem”.

Pedrógão mudou me. Eu mudei um pouco Pedrógão.

Ao fazermos bem aos que nos rodeiam, fazemos bem a nós mesmos. Ao cuidarmos dos outros, cuidamos da melhor parte de nós mesmos. É um fenómeno bem descrito: o Altruísmo Egoísta. Não é apenas conceptual, é também um fenómeno com expressão fisiológica.

Até hoje, sempre vi esta dinâmica como um defeito dos seres humanos, que são movidos por um ganho próprio para ajudarem os seus semelhantes.

Hoje vejo as coisas de forma diferente. Para lá da utilidade evolucionária e adaptativa inegável de tal ferramenta de cooperação, é das características mais belas da nossa espécie.

Sermos um organismo biológico que sente gratificação neuro-química na entre-ajuda. Mais do que tudo, sermos capazes de tal empatia – condicionada, principalmente, pelos neurónios espelho, suspeito! – que condiciona que uma acção no auxílio do outro seja sentida e percebida como em prol do próprio, fascina-me e orgulha-me.

É verdade que tudo isto é biologia evolucionária e neodarwinismo, mas depois de tudo explicado… como dizia Anne Frank: Pensemos em toda a beleza que ainda resta!

Não estou disposto a viver num mundo em que não façamos tudo que esteja ao nosso alcance, no limite do possível, para aligeirar o sofrimento de quem sofre.

Pedrógão mudou me. Eu mudei um pouco Pedrógão.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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